2007-07-13

FOI ASSIM com Zita Seabra

Comprei o livro de Zita Seabra ontem ao regressar de férias. Só li ainda algumas páginas e uma das passagens em que ela refere o meu nome para a qual me tinham chamado a atenção. Mais tarde, quando o ler, voltarei ao livro de Zita, que creio ser um testemunho incontornável.
Eis o texto do livro Foi Assim da Zita Seabra em que o meu nome é referido erradamente:

"Um dia é o Domingos Abrantes quem me chama para uma reunião na sede e me comunica que tinha sido visto um conhecido elemento da CIA a rondar a minha casa. Que os camaradas achavam muito estranho mas que os nossos serviços secretos tinham sido alertados para o facto de a CIA andar a vigiar os meus movimentos e que o Partido Comunista Português temia que estivessem interessados em obter informações. Comunica-me então que o Secretariado do PCP tinha decidido que me iam revistar a casa, para ver se a CIA tinha lá posto algum microfone. Fiquei aterrada, não com medo da CIA, evidentemente, mas com medo dos serviços de segurança do Partido. Vieram a minha casa mais de dez camaradas, entre eles Raimundo Narciso, ... que viriam a ser dissidentes da Terceira Via, o ... , segurança do Cunhal e todos os membros mais importantes das equipas de segurança, dos serviços de informações e das ligações aos serviços secretos. Revistaram-me a casa toda, foram ao terraço (eu vivia no último andar), revistaram-me móveis e não deixaram nada no sítio, viraram armários, gavetas, chaminés, tudo. Uma revista vergonhosa feita pelos meus camaradas. A partir daí, percebi que me vigiavam ostensivamente a casa e me seguiam na rua, que me queriam neutralizar pelo medo. Não mudei um milímetro o que fazia até então. Os jantares de quarta-feira com Vital Moreira, José Magalhães e Jorge Lemos continuaram, sabendo todos nós o que o Partido tinha feito para me intimidar. Contei-lhes tudo. Chamei electricistas, gente dos telefones, cheguei a fazer obras para perceber se tinham deixado microfones e fios. Os fios que deixaram tinham terminais noutro andar do prédio. Em casa tínhamos comprado um ar condicionado FNAC há pouco tempo, o ar condicionado da RDA, e pareceu-me na altura que devia ter escolhido outra marca. Cortaram-se todos os fios que estavam a mais e o mesmo fizeram os vi zinhos do meu prédio. "

Nota: o negrito no meu nome foi colocado por mim. Substituí por ... (reticências) os outros 3 nomes que Zita Seabra refere.

Ora eu não participei em tal operação. Nunca estive em sua casa. Não tive qualquer relação directa ou indirecta com aquela "invasão" da sua residência nem dela tive, obviamente, conhecimento prévio.
Era natural que assim fosse porque as minhas tarefas no PCP, além de tarefas genéricas comuns a vários membros do Comité Central, eram as questões da Defesa Nacional e das Forças Armadas como é publico e notório (para as pessoas atentas à história do PCP) e não tinha então nem nunca tive, antes ou depois, actividade relacionada com as "informações" (intelligence) ou com a segurança interna do partido.

Tenho experiência de livros de memórias e sei que a memória por vezes dá-nos certezas que a realidade desmente. Por isso cotejá-la com documentos ou, na sua falta, com a memória de outras pessoas é muito importante.

Contactei hoje a Zita Seabra, por telefone, para o grupo parlamentar do PSD, na Assembleia da República, certo de que ela estava de boa fé e convencida do que afirmava no seu livro.
Foi com satisfação que recebi a sua resposta, que lhe bastava a minha palavra e que corrigiria publicamente o lapso, na primeira oportunidade.

17 comentários:

FuckItAll disse...

Bom, se toda a gente que tem comentado o livro fizer isso, a segunda edição está para breve: não por esgotamento da primeira, mas pela necessidade de rever... tudo.

Joana Lopes disse...

Fico a aguardar, comm muito interesse, que leia o livro e escreva sobre ele - porque estava por dentro e escreveu um livro diferente.
Eu já li e fiquei com «mixed feelings».

Anónimo disse...

acho uma piada a esta inês meneses... ainda mal se saiu do tempo das fraldas - sim, porque o tempo da mama esse nunca o vai largar - e vem para aqui mandar postas de pescada.

Ó Dr.ª, quantos anos tem mesmo?

Nicodemus disse...

Mas afinal essa "revista" existiu ou não existiu?

Pela quantidade de enganos já detectados, aqui e noutros blogues dá para perceber que ZS tem uma memória muito fraca...

Anónimo disse...

No blog cinco dias é que a discussão sobre o livro da Zita Seabra vai animada. NRA diz que não foi assim. aqui: http://5dias.net/2007/07/10/nao-foi-assim/
Anital

El Cordobez disse...

O Professor Hespanha também encontrou enganos de ZSeabra no "foiassim" sobre o serviço civico. veio no Publico

Anónimo disse...

Já li o livro. Apreciei muito a coragem de Zita em revelar-se tal como se revela. A sua paixão cega pelo ideal de um mundo novo a ponto de tudo sacrificar na sua vida que se lhe oferecia aberta à felicidade. Um mundo que ela revela corajosamente em toda a sua podridão e tragédia. Mas parece-me também revelar-se agora absecada por algum fanatismo de sinal oposto.
FáTIMA B.S.

Isabel Magalhães disse...

Caro RN;

Obrigada pela informação. Se não participou de um tal acto tem todo o direito de esclarecer os leitores, e se a ZS prometeu esclarecer o assunto, 'estamos' no bom caminho.
No bom caminho também está quem - corajosamente - denuncia os métodos 'democráticos' do PCP e de todos os PC do mundo.

Estive na Polónia em 1986 e vim 'aterrada'. Estive na Russia em 2000 e não gostei do que vi. (E claro que não me refiro à paisagem!)

Um abraço.

Anónimo disse...

Mas afinal a casa da ZS foi revistada ou não? E se foi, foi por pessoas ou não? E se foram pessoas eram do PCP ou não? E se eram do PCP ninguém sabe de nada? E se ninguém sabe de nada, como esse Raimundo Narciso, que andavam a fazer pelo PCP? E os outros 3 nomes referenciados, também não estiveram lá? Então não aconteceu nada do que a ZS disse? Ela é maluca? E se é maluca só agora é que notaram? Sendo maluca deixaram-na ter uma gabinete ao lado do de Cunhal? E se ela era parca de ideias e mau carácter porquê que tinha um gabinete ao lado do de Cunhal?

JVC disse...

Meu caro Raimundo, espero que não leves a mal este comentário, que é escrito com velha amizade e muito respeito pelo exemplo de coragem que tu foste. Mas a verdade é que hoje já ninguém liga a todas essas histórias de intriga na Soeiro. Infelizmente, o teu livro também peca um pouco por isso.
Escreve sobre o que é hoje o que consideras a tua posição de esquerda. Isto é que é importante, não acabares por dar a ideia de ainda estares fixado a mediocridades políticas. É mau darmos aos outros a ideia de que temos de ajustar contas com o nosso passado. É certo que muitas vezes é imperioso, eu bem o sei, mas deve ser conversa só connosco próprios.
Abraço fraterno,
João

Anónimo disse...

Aguardemos por novos testemunhos. Conheci os comunistas na sua acção diária, não tenho saudades desses dias. Há muitos "Foi assim" por escrever.

Anónimo disse...

"Foi com satisfação que recebi a sua resposta, que lhe bastava a minha palavra e que corrigiria publicamente o lapso, na primeira oportunidade". (Raimundo Narciso)
Zita Seabra tem aqui, neste blogue, a possiblidade de "corrigir publicamente o lapso".
Eu aguardo que o faça.
-
Comprei o livro de Zita Seabra. Ainda não o li. Folheei-o. Encontrei logo um ou outro erro tão flagrantes que me pergunto que credibilidade é que tem Zita quando emite opiniões subjectivas se em questões objectivas não diz a verdade?

Nuno disse...

Estava a ler estes comentários quando me lembrei que tinha em casa um livro de ZS editado em 1988 pela Europa América.
Abri algumas páginas ao acaso e na página 61 descobri que ZS era uma pura leninista. «É preciso regressar aos conceitos leninistas de partido e de sociedade, abandonando as suas perversões, estabelecendo nos estatutos normas de democracia interna e transparência que nos permitam ganhar o nosso povo, e particularmente as novas gerações, para os ideais do socialismo.»

E esta!

Joana Lopes disse...

Não sei se viu a entrevista publicada hoje no C. da Manhã. Aqui vai no que lhe diz respeito:

- Raimundo Narciso, dissidente do Partido Comunista Português (PCP) é apontado no livro como uma das pessoas que, em 1988, invadiram a sua casa. Ele negou ter participado nessa operação e assegurou que o lapso seria alterado.

- Sobre o que está escrito, não tenho nada a adiantar.

- Vai ou não alterar?

- Eu não altero nada.

http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=252637&p=22&idselect=19&idCanal=19

Anónimo disse...

Isto foi assim mesmo como diz a Zita.
Eu também por lá passei, em Setúbal, de 1975 a 1986, e por isso sei que é tudo verdade.

Aos críticos do livro cito o Camarada Álvaro: "Façam favor de serem felizes..."se conseguirem!

JN disse...

Meus amigos bem se ele não esteve na casa da ZS e sei que não esteve, alguem me pode dar a morada dela que assim eu vou lá para esclarecer com ela afinal o que se passa.

Albano Mesquita disse...

E a parte dos electricistas é interessante... impressionante também éa quantidade de empresas que existem em Portugal e que se dedicam a este negócio da iluminação e electricidade e conseguem "sobreviver" neste nosso belo país....