2007-06-22

Entrevista ao Portal da Literatura

O Portal da Literatura pediu-me uma entrevista sobre o livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via e eu agradeçi e dei-lha com todo o gosto.
Aproveito para informar que com excepção desta e da que dei a José Pedro Castanheira para o Expresso, todas as outras sairam sem serem vistas por mim. Resultaram de conversas gravadas e o jornalista escreveu as "minhas" respostas, com maior ou menor fidelidade ou acerto e condicionado pelos constragimentos de espaço. Daí que, apesar de em geral haver um notável poder de síntese e qualidade, por vezes apareçem respostas estereotipadas ou até incompreensíveis. De modo que o que faz fé é mesmo o que está no livro.
Link para a entrevista no Portal da Literatura: Aqui

2007-06-21

Jara defende, no Avante, as "vigilâncias" aos dissidentes do PCP

José Manuel Jara escreveu no último Avante uma crónica que pretende ser uma apreciação crítica ao livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via.
Na realidade a quase totalidade da prosa entretém-se a atacar o autor do livro. O pouco que dedica a contrariar factos ou argumentos é verdadeiramente risível e tem serventia apenas no ambiente assombrado pelo defunto marxismo-leninismo.

Os argumentos ad hominem não merecem nenhuma perda de tempo. Sobre eles vale a pena, pelo que contém de mordaz e certeiro, o post que João Tunes lhe dedica no seu Água Lisa. Tunes historia aí as condenações dos dissidentes ao internamento em hospitais psiquiátricos com que Brejnev substituiu, na União Soviética, os fuzilamentos de Estaline. E depois retira conclusões para o caso em apreço que se poderiam resumir assim:

preocupado com as revelações do livro de Narciso o Avante pediu reforços. E tratando-se de caso de dissidência, o colectivo, munido da comprovada experiência brejneviana, recorreu a um psiquiatra.

É claro que é só um faz de conta. É que afinal já nem existe Brejnev, nem União Soviética, nem comunismo, nem mais ninguém com pachorra para ser dissidente dos fantasmas que o psiquiatra José Manuel Jara conserva em naftalina.

Para avaliar a força argumentativa e o pensamento de Jara basta referir que ele dá, de modo hilariante, 15 anos depois de acontecimentos “que abalaram o mundo” como acertado o diagnóstico de Cunhal (então, em 1988, ainda se compreendia) para o que então se estava a passar com as dissidências do «Grupo dos Seis» e da «Terceira Via»:

“crise de consciência comunista de alguns militantes”

Mas o psiquiatra José Manuel Jara acometido pelo sobrenatural, com o PCP reduzido a pouco mais que mascote da “burguesia”, aqui e ali parceiro do PSD, com a implosão da União Soviética, a extinção do comunismo (se não considerarmos as reservas museulógicas de Cuba e da Coreia do Norte) acha, em 2007, que não se passou nada. Que em 1988 ainda não se passava nada. As causas que levaram tantos milhares de comunistas a questionarem-se, a afastarem-se do PCP e a deixarem de ser comunistas não resultavam de mudanças profundas na realidade política nacional e no mundo. Não. Tratava-se de “crise de consciência” de uns “transfugas” que queriam ir para o “reino do mal”, o PS e que naturalmente deveriam ser tratados em hospital psiquiátrico.

"A atitude preventiva da direcção do PCP, a vigilância, o controlo e a luta contra a dissidência, permitiu evitar o pior." - Sentencia Jara.

No que se traduzia a dissidência dos Seis, da 3ª Via e depois das que se seguiram? Em querer liberdade para expor e defender as suas ideias no partido, nos seus organismos e nos meios de comunicação próprios, sem represálias. Acusados, ameaçados, estes cometeram o crime de discutir entre si, escrever nos jornais ou em documentos internos que circulavam à revelia da censura interna. A isto a direcção respondeu com espionagem, vigilância a militantes e às suas residências. Jara aprova e justifica. Como aprovaria e justificaria provavelmente, de acordo com as circunstâncias, os internamentos psiquiátricos de Brejnev ou os fuzilamentos de Estaline. Que no seu tempo e no seu lugar também se justificavam para “evitar o pior”.

Jara acusa no Avante, os dissidentes, ou alguns dissidentes de 1987/88, de terem ingressado, em 1995, no PS (como poderia acusar outros de terem ido para o Bloco de esquerda ou o PSD) julgando fulminá-los sem se aperceber que tal enxofre, tais raios e coriscos, só lampejam nas mentes dos devotos do órgão interno do PCP. E que no país que extravasa os estatutos do seu partido só seria verdadeiramente surpreendente é que alguém de qualquer outro partido fosse a correr alistar-se, no partido de Jara.

José Manuel Jara desculpa-se perante o PCP de ter lido o livro e justifica leitura tão blasfema pela necessidade de o ler para o poder criticar. Quem não conheçe a mentalidade dos crentes de qualquer seita poderá achar bizarra ou mero processo de intenções a afirmação que João Tunes, com perfeito conhecimento de causa, faz no seu blog ao dizer que os artigos no Avante (referia-se aos dois primeiros) ao criticarem o livro sem que os autores o tivessem lido tinha apenas o propósito de o colocar no índex, de impedir a sua leitura pelos militantes. Um estranho a igrejas diria que, fruto proibido, estimularia a leitura. Na realidade os militantes não crentes, se o quiserem ler deverão fazê-lo às escondidas ou justificarem a leitura com qualquer propósito redentor, como fez Jara. Mas os “crentes” sentirão uma natural repulsa pelo livro, como qualquer religioso fanático sentiria pela leitura de algo inspirado pelo diabo.

Por fim Jara, referindo-se aos dissidentes, diz que “Quanto à política, está a paredes-meias com a economia política e as finanças pessoais. A ideologia antes sobrevalorizada, agora é muda. O único «pensamento» é mercantil”.
Jara, ao que me dizem, ganha bem e vive desafogadamente. E nisso não vejo nada de reprovável. Pelo contrário, se for por mérito seu. Dizem-me que apesar de nunca ter feito sacrifícios pelo seu partido venera os que o fazem. Também não me parece caso para qualquer reparo. Mas que se abalance a fazer críticas e processos de intenção como aqueles parece-me, para tanto, faltar-lhe moral e vergonha.

2007-06-07

Visão, 2007-06-06

Entrevista conduzida por Miguel Carvalho. Fotos de Luís Barra


Não diz Álvaro. Diz Cunhal. Nem sequer Álvaro Cunhal
Quem conhece o PCP, sabe que isso é a marca de um divórcio, a distância definitiva. Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via (edições Ambar) é a história de uma separação dolorosa, amarga, por vezes contada num tom azedo. Afinal, é o livro de um homem de 68 anos, com quase três décadas de PCP, ex-dirigente da ARA, a organização armada dos comunistas para minar o fascismo português. Afastado da política activa, militante do PS, gestor e consultor, avô babado, Raimundo Narciso ainda «puxa palavra» num blog com o mesmo nome. Puxemos agora pela conversa...

Porquê este livro após tantos anos e depois da morte de Álvaro Cunhal?
Publicá-lo em cima dos acontecimentos podia ser interpretado como vontade de intervir na vida do PC. Estava escrito há anos, apenas o retoquei. Foi mero acaso sair depois da morte do Cunhal. A decisão de publicar é anterior.

O que sentiu no dia em que ele morreu?
O funeral foi um acontecimento memorável, tendo em conta o que ele representa
para a história do PCP e do século XX. Mas não senti mais do que isso.

(Continua aqui )

2007-06-04

Na blogosfera

Relação dos blogs (os que detectei) que referiram ou comentaram o livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via:

Água Lisa (6) link 1 , link 2 , link 3 , link 4 , link 5 , link 6

Nota: também encontrei um blog que a propósito do livro comentou não o livro mas o autor. Mas a linguagem de tão desapropriada (terminologia rasca do "milieu") que por uma questão de higiene me dispensei de mensionar.
Também em alguns posts dos blogs enumerados aparece o comentarista (o camarada!!) de serviço, sob vários nomes, a revelar que a mentalidade reinante lá por casa se mantém "coerente" e imutável..