2007-08-30

Sou Assim

Zita Seabra deu uma entrevista à Visão (2007-08-30) onde tinha a oportunidade de desmentir a minha presença numa "visita do PCP" a sua casa em 1988 e não desmentiu. Prefere, por orgulho, julgo eu, (o orgulho apesar de venial é um pecado) continuar a mentir.

Nesta entrevista repete passagens do seu livro como esta: "as camaradas ganhavam menos que os homens e as «amigas da casa do partido» não tinham sequer o direito de ser chamadas de camaradas." Eu estive na clandestinidade (1964 a 1974) no mesmo período que ela (1967-1974) e em todo esse período conheci para além da minha, várias casas de outros militantes clandestinos dos PCP e em todas elas as mulheres com ou sem trabalho de organização ganhavam rigorosamente o mesmo. E não passava pela cabeça de ninguém que não fossem tratadas em pé de estrita igualdade com os homens. No tratamento como "camaradas" ou qualquer outro aspecto relacionado com a sua pessoa. Concluo que frequentámos a clandestinidade em partidos diferentes.

Noutra passagem da mesma entrevista, a propósito da derrota militar sofrida pela revolução, em 25 de Novembro de 1975, Zita diz : "Se eu tenho ganho, teria sido uma tragédia. Felizmente que fomos derrotados no dia 25 de Novembro de 1975." O negrito foi colocado por mim e a afirmação ainda ficava melhor se em vez de "fomos derrotados" Zita tivesse dito "fui derrotada". Porque se já percebemos pela leitura do seu livro de memórias que o PCP era constituído essencialmente por Álvaro Cunhal e Zita Seabra não é menos verdadeiro que no 25 de Novembro estavam em confronto de um lado três quartos do país: os sectores políticos e militares da direita, do centro e de parte da esquerda (PS, "grupo dos 9", etc.) e do outro... Zita Seabra.
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Nota: o "eu" que sublinhei poderia ser uma expressão infeliz de quem redigiu a entrevista mas presumo que seja autêntico porque ele define o que há de mais paradigmático no livro de memórias de Zita Seabra.

2007-08-26

Sou Assim. Agora sou católica

Nem sempre leio a Visão e por isso acontece perder pérolas destas (Visão 2007-08-09 pág.18).

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Zita Seabra que assevera no seu livro ter-se pautado na sua conduta de dirigente comunista por "uma fé cega" nas ordens que recebia da direcção do PCP (incluindo-se assim na elite restrita de dirigentes "cegos pela fé" ) adquiriu uma nova religião e um novo dogma, o católico. Não a critico. Pelo contrário. Surge-me até a esperança de que seguindo os preceitos da Santa Madre Igreja - não mentirás! - venha rectificar o lamentável equívoco cometido no seu livro ao incluir-me num episódio desagradável em que não estive.

Pior que ter-se enganado foi prometer-me corrigir publicamente o erro e depois em entrevista ao CM dizer que não tinha nada a alterar.

Ora eu não pedia que alterasse tudo o que estivesse errado, o que poderia revelar-se hercúleo, mas tão só a passagem caluniosa a meu respeito.
Vejamos agora, católica, ainda fresca do baptismo, se Zita Seabra faz contricção, se corrige ou se se mantém contumaz.

2007-08-25

"A TEORIA É A NOSSA PRÁTICA"

O terceiro capítulo do livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via que em seguida se reproduz aborda a questão do culto da personalidade, a sacralização de Álvaro Cunhal e a questão da "unidade de pensamento" no PCP (enquanto nele estive filiado, agora não sei o que lé se passa!...) para cuja preservação a direcção sempre recusou uma revista teórica com argumentos como o do título;

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CUNHAL NO OLIMPO

1) A sacralização de Álvaro Cunhal

Álvaro Cunhal com setenta e quatro anos de idade e ainda com cinco anos à sua frente como secretário-geral do partido, chegara ao Olimpo. Um Olimpo à medida do PCP, mas em todo o caso um Olimpo.
O Partido Comunista Português era em finais da década de 70, tendo em conta o país, um dos maiores e mais influentes partidos comunistas dos países capitalistas. Se houvesse que atribuir méritos por tais grandezas, ninguém hesitaria em atribui-los sobremaneira a Álvaro Cunhal. Sem esquecer os outros quadros revolucionários e as lutas notáveis que protagonizaram que lamentavelmente, ninguém vai conhecer porque não foram passadas a escrito salvo um número relativamente pequeno de autobiografias ou relatos, vivos e interessantes, de lutas contra a ditadura da autoria dos próprios protagonistas. E é pena. Para os Portugueses que ficam sem conhecer uma parte de si. E em muitos casos uma parte vibrante de coragem e abnegação.

Figura carismática e amada no seu partido pelo heroísmo patenteado nas prisões fascistas e na clandestinidade, “o Álvaro” era venerado pela sua coragem, inteligência, cultura. E dedicação total à luta pelo comunismo. A sua acção e as suas características pessoais tornaram-no um dos mais prestigiados dirigentes internacionais no universo comunista e em particular na União Soviética.
A luta sem desfalecimento durante o meio século de ditadura em condições de clandestinidade e forte repressão e depois o papel central desempenhado pelo PCP na revolução do 25 de Abril trouxeram-lhe e ao seu líder grande influência entre uma significativa parte dos Portugueses. Se grande era a força do ditador Salazar, à sua altura levantava-se Cunhal! Muitos assim pensavam.

O prestígio e a adoração de Cunhal não deixavam de crescer num partido onde, a iliteracia, o atraso cultural, a fé que não o estudo, caracterizava uma grande parte dos militantes apesar de ter nas suas fileiras, ou como simpatizantes, grande parte da elite intelectual do país.
A comparação com a classe operária da França, Itália, Alemanha e outros países europeus era frequentemente usada por Álvaro Cunhal, na permanente formação interna de quadros que constituíam as suas conversas, para sublinhar uma pretendida superioridade revolucionária da classe operária portuguesa patente nas frequentes manifestações, greves e agitações sociais. E que explicação haveria para tal milagre no país que incessantemente repetíamos ser o mais atrasado da Europa? Pois apesar de a classe operária portuguesa ser das últimas a formar-se na Europa Ocidental devido ao atraso industrial do país, ter menos tradições de luta revolucionária e estar mais marcada pela sua chegada recente do campo, tal prodígio, teria de se concluir, resultava do persistente trabalho de esclarecimento do PCP junto da massa dos trabalhadores! Intimamente era lógico concluir que em elevado grau isso era mais um mérito a atribuir a Álvaro Cunhal.

O secretário-geral em cada reunião do comité central e sempre que a ocasião o proporcionava, explicava como era gratificante ver reconhecido na União Soviética e em todo o movimento comunista internacional “o grande prestígio do nosso partido”. Cada participação em acontecimento importante lá fora, no mundo comunista, de acordo com a informação ao comité central, revelava o alto valor e estima em que era tida a participação do PCP. Como quem chefiava as delegações portuguesas para acontecimentos de maior relevância era quase sempre Cunhal concluíamos a quem se devia atribuir o mérito. Só a firme oposição de Cunhal ao culto da personalidade impedia que o próprio colocasse tais feitos no seu curriculum e insistisse em os atribuir ao “nosso glorioso colectivo”.

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2) Teorias? bastavam as de Cunhal

Apesar de a condição operária constituir a regra de oiro na selecção e promoção de quadros do PCP e ser defendida com esforçado empenho pelo secretário-geral, não foi possível encontrar na classe operária portuguesa nem no partido, nas últimas dezenas de anos, um único quadro operário (ou não operário!) que se aproximasse da estatura do intelectual Álvaro Cunhal. Ou que lhe pudesse fazer sombra! Não é estranho? Não, não é estranho. É uma consequência do “pensamento único”, concepção da unidade do partido tão acarinhada no PCP e uma consequência da sacralização de Cunhal. Mesmo à sua revelia. Tais quadros teriam de respeitar, no essencial, as ideias de Cunhal, mesmo delas discordando ou confrontá-lo na sua liderança. O terreno estava minado e ninguém se dispôs a trilhar tão incerto caminho ou conseguiu evitar as minas.
Este vazio que se foi consolidando desde Janeiro de 1961, altura em que Cunhal fugiu do Forte de Peniche e regressou à direcção do partido, tinha pelo menos duas consequências redentoras, libertaria o partido durante décadas do vício “próprio dos partidos burgueses” que é a competição “fratricida” pelo poder e garantiria a inamovibilidade de Cunhal na liderança do partido.

O modelo do PCP era e continua a ser o do partido estalinista. Modelo do partido bolchevique que após a morte de Lenine viu agravada a liberdade de expressão, acabou com a possibilidade de organização de tendências, proibiu a circulação na imprensa partidária e na organização do debate livre de teses opostas às da direcção. O modelo de partido consagrado com a chefia de Estaline acabou por ser o modelo que, na prática, serviu de exemplo aos comunistas de todo o mundo, a partir de Moscovo. Em Portugal foi esse o modelo seguido, sem o culto da personalidade, sem as perversões e os crimes de Estaline, sem a paranóia persecutória do “pai dos povos” no fim da sua vida, sem a degenerescência proporcionada pelo poder mas também sem a cultura do estímulo ao debate livre, à pluralidade de opiniões, ao contraditório, à abertura de espaço para posições contrárias relativamente a questões essenciais. Porque relativamente a questões sectoriais a questões tácticas, orientações que não pusessem em causa as orientações centrais, não bulissem com o poder, aí havia toda a liberdade. Naturalmente que estes limites do PCP não eram, para o militante cheio de fé, muito evidentes nem, frequentemente, percepcionados pelo militante comum. Isso só se tornou claro para muitos quando as divergências de fundo vieram ao de cima. A uma escala de massas, como a partir do fim dos anos oitenta, ou individualmente, noutras alturas.

Curioso é assinalar que algum tempo depois da revolução de 25 de Abril foi muito debatido, pelo menos nos corredores da sede do comité central ou em pequenos grupos, e muito menos de forma regular nas organizações do partido ou no comité central, a questão do debate teórico no partido e em particular a natureza a dar ao boletim O Militante. Havia quem defendesse que este deveria dar lugar a uma revista de debate teórico ou das questões ideológicas mas tais opiniões tiveram a oposição de Cunhal e outros dirigentes que defenderam que a revista devia continuar a ser um boletim de organização. A direcção de modo nenhum poderia tolerar a ideia da “revista teórica”; isso redundaria no debate de questões essenciais de orientação e na pluralidade de ideias a circularem pela organização com a chancela da legalidade. Seria transformar o partido, “exército disciplinado” com um “pensamento único” no despautério de um “clube de discussão”. Para teorias bastavam as que Cunhal fosse escrevendo nos seus discursos ou documentos oficiais. Álvaro Cunhal chegou a sustentar, em conversas informais, na Soeiro Pereira Gomes, que em Portugal, com o PCP na vanguarda por transformações económicas e sociais profundas, “no nosso partido a teoria é a nossa prática”.
Havia duas razões para tal recusa de uma revista teórica. A primeira e fundamental era a já referida, evitar o aparecimento e o debate no partido de “teorias” que se pudessem chocar com as da direcção ou de Cunhal. E a segunda porque Álvaro Cunhal não tinha o pendor especulativo e teorizador característico de alguns expoentes do movimento comunista.


Quando a decadência do PCP começa a acentuar-se nos anos oitenta e se tornava indispensável determinar as suas causas e mudar a política, a exigência de pensamento único em torno do pensamento do líder está de tal modo sedimentada, é um valor de tal modo sagrado que tocar nele é trair e colocar-se ao lado do inimigo.
Quando o definhamento do PCP parece tornar-se irreversível para o fim dos anos oitenta e é necessário questionar o secretário-geral ou confrontá-lo com a realidade que em definitivo recusa aceitar, Álvaro Cunhal já não está acessível. Paira nas alturas muito acima do erro humano. A sua gerência do PCP já não é terrena. É do domínio do sagrado. No PCP ascendeu à condição de intocável. Apesar de andar por ali na sede, no meio de nós, de o tratarmos por tu, de almoçar e ir tomar café connosco, usar jeans e camisas de meia manga.

2007-08-12

"DESCULPEM mas não resisto"

É o título (aqui) de mais um post de Vítor Dias, dirigente retirado do PCP e actualmente consultor, sobre o livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via a quem o autor desvanecido começa por agradecer a atenção assim como ao Avante pelos seus três artigos.
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Dias dixit:" ... parece que Raimundo Narciso está muito «decepcionado» com Zita Seabra. De facto, vendo que Zita Seabra, no seu livro de memórias reescritas pela sua presente ideologia, o tinha incluído num grupo que, a certa altura...
"Ora acontece que Raimundo Narciso pode ter carradas de razão mas não tem nem um cisco de autoridade moral ou política para se queixar do comportamento de Zita Seabra. É que, em 5 de Maio, aqui, eu desmenti uma referência feita num texto do Expresso, implicitamente reportada ao livro de R.N., segundo a qual eu próprio (tal como Luís Sá e Ruben de Carvalho) teria participado numa primeira fase da «conspiração» da «terceira via» e que, só depois, não teria acompanhado R. N. "
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1) Começo com uma declaração de interesses relativamente ao meu livro: não só estou aberto a todas as rectificações que se revelem fundamentadas como peço e agradeço a quem se queira dar a tal maçada a fineza de mo comunicar para nas futuras edições as incluir.

2) Queixou-se Vítor Dias (VD) com infundado alarme, no seu blog, de uma monumental mentira e uma rotunda falsidade (aqui e aqui )
Se quisesse usar o estilo "corânico" de VD podia dizer que toda a sua MONUMENTAL indignação assenta primeiro numa apresentação jornalística do livro no Expresso pela qual obviamente não me cabia responder. Aconselhei que antes de prosseguir a gritaria lesse o livro (fim deste post). Mas VD preferiu tresler o livro para se dar razão no primeiro post e, vitimizar-se, com queixas infundadas. Acusou o autor de coisas nefandas como a de ter ido para o PS com "relativa rapidez"! Oh Vítor Dias você está a falar a sério ou a fingir que confunde o PS com o reino do mal? V. está a falar, descontraído, no seu blog, ou está a pregar do alto da sua antiga madrassa?).

3) Ora como Manuel Correia expõe aqui e aqui só forçando o texto do livro, dizendo sim quando se diz não se poderá descobrir VD entre o grupo dissidente da 3ª via.
Para que fique claro, repito o que se depreende do livro:

Vitor Dias não fez parte do grupo "fraccionista" da 3ª via. Nem antes nem depois dele existir (nota 1). E para memória futura e eventual defesa aqui deixo este registo.

Quando digo no livro (pág 65) e VD transcreve “Dos iniciais componentes do Gabinete de Crise (durante o ano de 1987 e início de 88) já só restavam, decididos a não recuar, António Graça, Vítor Neto, Pina Moura, Fernando Castro, José Luís Judas e o autor deste relato. Vítor Dias, Luís Sá, Ruben de Carvalho e outros que até ali tinham feito intervenções mais ousadas, [no comité central, perante quase 200 testemunhas] mas sem nunca pisar o risco, deixaram de nos acompanhar, por convicção ou por outras razões."
O pecado fraccionista só vem lá para Abril de 1988 (não tenho elementos escritos sobre a data exacta) e pessoas como as citadas e que naturalmente poderiam ter evoluído para posições de rotura com a linha política oficial não evoluíram. Posso aceitar que era no máximo uma expectativa de alguns dos futuros "fraccionistas" e dissidentes que a realidade revelou errónea e assim salvou VD e outros desse calvário ou dessa libertação, conforme os pontos de vista.

4) Vítor Dias talvez tenha querido prevenir "leituras" de quem só distingue o preto do branco e acusou-me de o meter dentro da "3ª via" ou ao menos nos tratos preambulares da sua formação. Posso jurar que Vítor Dias está, tanto quanto sei, totalmente limpo de qualquer contaminação. E mais, com bonomia estarei disposto, se ele muito insistir, a aceitar que VD pode ter pecado por pensamentos mas não por obras de que eu tenha conhecimento.

5) Dizia VD no seu blog: "acontece que Raimundo Narciso pode ter carradas de razão mas não tem nem um cisco de autoridade moral ou política para se queixar do comportamento de Zita Seabra."
E forçoso é concluir que as posições de RN e Zita Seabra são diametralmente opostas. RN quer que Zita Seabra o retire duma "inspecção" a sua casa que descreve no seu livro mas onde ele não esteve e ZS diz que não altera nada do que escreveu. Relativamente ao meu livro VD quer ler à força e contra o que escrevo que eu o arrumei entre os dissidentes mesmo que só nos treinos. E eu remetendo para o livro nego e dispunha-me gratamente a retirá-lo se lá estivesse.
Assim se revela que Vitor Dias é que não tem "um cisco de autoridade moral ou política" para vir com mistificações pouco sérias."
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Nota 1: "Gabinete de Crise foi a expressão que num momento de inspiração um dos membros da segurança da sede do comité central se lembrou de aplicar ao grupinho que diariamente se juntava na sala de convívio, da Soeiro Pereira Gomes, depois de almoço, com cara de caso e conversa solta a discutir o futuro do PCP. Estávamos em 1987. Hoje ninguém se lembra disso a não ser um ou outro dos raros elementos da segurança que ainda se não foi embora, perdida a fé, a esperança e as razões que justificavam o espírito de tanto sacrifício." (página 26, do livro AC e a dissid...")
Nota 2: para o tornar mais "legível" reduzi a extensão do post.

2007-08-07

Pela rede

Mais referências ou opiniões acerca do livro Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via encontradas na blogosfera (Continuação desta relação de blogs)

MACHINA SPECULATRIX 2007 07 19

EX-IVAN NUNES 2007 07 06
O NOSSO ALENTEJO 2007 06 04

Zita Seabra não corrige

Zita Seabra em entrevista ao Correio da Manhã Domingo passado:
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Correio da Manhã: - Raimundo Narciso, dissidente do Partido Comunista Português (PCP) é apontado no livro como uma das pessoas que, em 1988, invadiram a sua casa . Ele negou ter participado nessa operação e assegurou que o lapso seria alterado.
Zita Seabra: - Sobre o que está escrito, não tenho nada a adiantar.
CM - Vai ou não alterar?
ZS - Eu não altero nada.
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Reafirmo tudo o que disse antes, isto é, que nunca estive em casa de Zita Seabra e não tive absolutamente nada a ver com a operação que relata no seu livro, nem directa nem indirectamente.

O mínimo que posso dizer das declarações de Zita Seabra ao CM é que fiquei muito decepcionado. Na realidade, das qualidades que mais aprecio numa pessoa é a sua honradez, e o respeito pela palavra dada. Não sei como explicar tal atitude. Nós conhecemo-nos bem desde pelo menos o momento em que ela se tornou um quadro conhecido no PCP, quando em 1984, foi o rosto das posições comunistas sobre o aborto na AR. E mais ainda no período das dissidências de 1987/91. Parece-me estranho que me pudesse "ver" em sua casa sem eu lá ter ido. Um desconhecido pode ser confundido. Um caso de pouca relevância pode facilmente esvanecer-se na memória. Num caso como aquele não sei explicar. Mas dei-lhe o benefício da dúvida. Zita Seabra equivocou-se.

Em 13 de Julho, não conseguindo contacto telefónico, enviei a Zita Seabra para o Grupo Parlamentar do PSD, um email a pedir rectificação. Nesse mesmo dia, algum tempo depois, consegui falar-lhe por telefone para a AR. Revelei-lhe a minha estupefacção pelo que me imputava no livro. Zita Seabra como explicação foi-me dizendo que "recebi uma nota com o teu nome" e mais à frente: "tinha um apontamento com o teu nome" o que me levou a perguntar-lhe, porque no livro não é explícito, se ela não estava presente. Que sim que "assistiu a tudo". Perante o meu espanto acrescentou que lhe entraram pela casa dentro "10 ou 15 pessoas". Tomei isso como uma explicação para o equívoco no meio da confusão. (Se bem que me pareça inverosímil que possam ter ido mais que 3 ou 4 pessoas. A menos que os "serviços secretos e de segurança do PCP" quisessem fazer uma acção para dar nas vistas o que seria absurdo. Zita diz que além das 4 pessoas cujos nomes cita, das quais três eram membros do Comité Central, iam ainda com eles segundo diz no livro "todos os membros mais importantes das equipas de segurança, dos serviços de informações e das ligações aos serviços secretos"!! Mas, enfim, 19 anos depois, é natural nem tudo ter ficado na memória.) Perguntei-lhe ainda a data da "inspecção" para perceber melhor em que ponto das várias dissidências íamos então. Disse-me que foi antes da sua expulsão da Comissão Política do PCP (que ocorreu na reunião do CC do PCP em 4, 5 e madrugada de 6 de Maio de 1988 que eu descrevo pormenorizadamente em quase 10 páginas do meu livro Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via publicado em 15 de Maio de 2007, cerca de um mês e meio antes do livro de Zita Seabra.)
Segundo depreendo e apoiando-me no seu livro, Zita Seabra, ainda na Comissão Política do PCP, já no princípio das divergências mas ainda acreditando (como muitos de nós, aliás) no comunismo, foi pressionada pelo secretariado do CC do PCP para autorizar a inspecção a eventuais escutas na sua casa. Zita Seabra que ainda não rompera com o PCP autorizou.
Zita Seabra que manteve sempre, antes e depois da sua expulsão do PCP, relações cordiais comigo, se não se lembrava de quem foi a sua casa, quando escreveu o livro, poderia avivar a memória junto de mim (no que a mim diz respeito) ou até de outros que cita.
Tentarei ainda falar com Zita Seabra para perceber o que se passa. E para que corrija o erro. Não só se trata de uma questão de justiça mas de veracidade e credibilidade do livro e da autora.
Julgo que também Zita Seabra tiraria proveito de tal correcção.