2007-12-26

ALfredo Poeiras

Na sua versão completa o comentário está na caixa do post anterior mas para não ficar lá escondido trago-o para aqui. Para equilibrar os comentários da carta abaixo exposta. Afinal o comentário do Alfredo Poeiras é o de um operário-artista ou vice-versa da Marinha Grande e em termos de operariado e lutas operárias a Marinha Grande desde a revolta dos anos trinta que pede meças a qualquer terra operária incluindo o Barreiro!
Eis uns extractos do texto:

"O Pai Natal é um bacano, tinha-lhe pedido o teu livro, e ele não fez por menos...

«...Sou operário vidreiro, fui militante do Partido e da UJC/JCP durante alguns anos fui membro da Comissão Central.
Também passei por Moscovo, não pela escola do Konsomol, mas pelo Instituto de Ciências Sociais, em 1979.
Faço parte do imenso grupo anónimo que ao longo dos anos saiu do partido por não concordar com muitas das situações que tu consegues descrever neste livro.
Saí ainda antes do fim da URSS, o que aconteceu, só não era visto por quem não queria ver.
Mas lamento, quem ficou a ganhar foi o Capitalismo.
Até há pouco tempo tinha apenas a 4ª classe, o ano passado fiz o 9º ano no processo do RVCC [Novas Oportunidades] neste momento estou a tentar fazer o 12º no mesmo processo.
Estou a escrever isto porque, num dos trabalhos que já fiz. inclui este meu pensamento:
"Ao acabar este trabalho, não sei se consegui, transmitir toda a minha experiência e todas as minhas vivências, no entanto, continuo a acreditar que a luta de classes, terá sempre que ser vista, como o motor de desenvolvimento da sociedade. Não acredito que a sociedade Capitalista seja o fim, haverá sempre quem queira uma sociedade mais justa e fraterna, com menos desigualdades sociais, onde os senhoras da guerra, não tenham o poder de decidir o futuro da humanidade, onde o homem não seja o explorador de outro homem.»
...
Um abraço Alfredo Poeiras
25 de Dezembro de 2007

2007-12-20

Uma opinião sobre o livro "Álvaro ..."

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Agora, nesta quadra festiva em que o país pára (lá se vai o crescimento económico...) dediquei-me a arrumar papelada e descobri uma carta que recebi em Outubro, de um ferroviário, militante do PCP, do Barreiro, operário da velha guarda na qual dava a sua opinião sobre o Livro "Álvaro Cunhal e a diss..." e o "bando de trânsfugas" que eu, supostamente, transformei no livro em "heróis"... "burgueses".
A carta dirigida a mim foi, no entanto, enviada para a editora do livro, a Âmbar, por desconhecimento da minha morada.
Recebi na altura algumas cartas, forma de comunicação que caiu em desuso e bastante mais emails com opiniões as mais opostas. Mas esta carta é paradigmática de um vasto universo das fileiras do PCP. Por isso me pareceu interessante reproduzi-la. Ela dá uma imagem fidedigna do PCP, hoje ainda, e ajudará os não iniciados a perceber melhor aquele mundo.
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Barreiro, 12 de Outubro de 2007

Exmº Senhor Raimundo Narciso

Antes de mais quero identificar-me:
Sou o A... C... cidadão reformado, ferroviário durante 43,5 anos. Tenho actualmente 75 anos e desde muito jovem que abracei os ideais da liberdade. Trabalhador e filho de trabalhadores rapidamente percebi que a sociedade em que vivia era uma sociedade injusta em que os humildes eram votados ao mais miserável desprezo.
Assim tornei-me logo na minha adolescência um militante anti-salazarista. Pertenci ao MUD Juvenil e mais tarde nos meus 26-27 anos, ingressei no Partido Comunista Português, onde estarei até ao fim dos meus dias.
O senhor e toda essa gente que cita no seu livro também dizem que foram comunistas.
Li o seu livro "Álvaro Cunhal e a dissidência da Terceira Via" e digo-lhe desde já que o mesmo me merece uma total repulsa.
Toda essa gente que o senhor apresenta como heróis não passam afinal dum bando de trânsfugas que apenas procuravam uma situação de privilégio - "tachos" como se diz em linguagem popular.
Vejam-se as posições que todos ocupam hoje: Ministros, secretários de Estado, assessores, directores de empresas com chorudos salários e tudo o mais que é preciso para uma vida faustosa.
Que vos faça bom proveito toda a vossa situação burguesa.
Eu por mim continuo de cabeça levantada seguindo aqueles que nunca se venderam.
É tudo.
A... C...
Barreiro

2007-10-21

O livro, pretexto para debate sobre o PCP

A apresentação do livro "Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via" no fórum da FNAC de Coimbra no dia 11 de Outubro, pelo deputado Osvaldo de Castro, suscitou o interesse de algumas dezenas de participantes entre os quais algumas figuras de relevo da vida política e académica nacional e Coimbrã.
Após a intervenção do deputado Osvaldo de Castro que apresentou o livro e evocou com brilhantismo a vida política nacional em cujo contexto o livro se situa e a exposição feita pelo autor, seguiu-se um interessante debate que contou com a participação de Vital Moreira, Rui Namorado e a sindicalista Fátima Carvalho entre outros. Presentes também amigos como Carlos Cidade, Moura e Sá, José Baldaia. José Baldaia, empresário, que nesse dia enchia a capa da revista Visão como cozinheiro amador de eleição.

O debate versou nomeadamente a história do PCP e as razões da sua trajectória singular no contexto europeu, após o desaparecimento da União Soviética, onde outros partidos comunistas desapareceram ou minguaram de forma mais acelerada que o PCP.

No fim do debate, um repórter da Lusa fez uma breve entrevista ao autor de que resultou a seguinte notícia no site da RTP.

2007-10-05

Lançamento dia 11 em Coimbra

O Livro "Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via" vai ser apresentado no forum da FNAC de Coimbra na próxima 5ª feira dia 11 de Outubro às 21h e 30 minutos pelo deputado Osvaldo de Castro.
A primeira apresentação foi feita pelo escritor Mário de Carvalho e pelo eng. Mário Lino na FNAC do Chiado, em Lisboa, em 17 de Maio passado. A segunda apresentação, na FNAC do Porto, em 25 de Setembro, foi feita pelo dr. Joaquim Pina Moura.

Segunda edição

A segunda edição de Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via será distribuída em Outubro e revela o interesse por livros de memórias sobre a vida política nacional recente.

2007-10-04

APARIÇÕES

Se Zita Seabra conseguiu "ver" no Comité Central do PCP, cujas reuniões ela frequentava, a cara inconfundível deste homem, já me faz menos confusão que ela me tenha "visto" em sua casa aonde eu nunca fui.

Eis o que ZS diz em Foi Assim, na pág 342:

«os jornalistas entravam, num breve intervalo, para fotografar o Comité Central, mas os camaradas sindicalistas, dirigentes da CGTP, como José Luís Judas ou Carvalho da Silva e os do futuro partido camponês como Júlio Sebastião, um quadro do Cadaval (muito bom homem, que morreu num acidente trágico), eram escondidos na casa de banho do anfiteatro, enquanto os fotógrafos dos diversos jornais permaneciam na sala.»

O Expresso de 1 de Novembro de 1997, duas semanas após a morte de Júlio Sebastião, traz a notícia seguinte:

"A OESTE NADA IGUAL

Reconstituição do dia-a-dia de Júlio Sebastião, o agricultor que, devido ao seu empenhamento político-social, ficou conhecido por «Che Guevara do Oeste». Retrato de um «anarca de direita», de palavras simples e certeira, que «era capaz de tudo para defender os interesses da região, fosse contra que partido fosse» "

Júlio Sebastião não tinha nada a ver com o PCP e muito menos era membro do Comité Central mas mesmo assim Zita Seabra não só o "viu" no CC como sabia que era "muito bom homem".

2007-09-30

Apresentação do livro no Porto

No dia 25 de Setembro o livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via foi apresentado no Porto no fórum da FNAC em Stª Catarina, por Joaquim Pina Moura, com a presença do autor e da Isabel Ferreira representante da editora Âmbar.
Pina Moura fez uma apreciação crítica das posições políticas defendidas pelo PCP e que estiveram na origem das divergências políticas que ao longo do tempo culminaram na dissidência e afastamento de muitos quadros e militantes, no fim dos anos 80 início dos anos 90.
O evento contou entre outros com a participação de antigos membros do Comité Central do PCP, como Ernesto Afonso e João Semedo actualmente deputado pelo Bloco de Esquerda, o ex-deputado do PS, Pedro Baptista, o jornalista Carlos Magno. Uma das intervenções da assistência pertenceu a um militante ou simpatizante do PCP que ponderou não ter o autor nem o apresentador o direito de falar desse partido e que, pelo que disseram, provaram que nunca foram comunistas. Foi uma intervenção que assegurou um largo pluralismo ao breve debate.

2007-09-06

10 livros que não mudaram a minha vida

Esta é a prometida e devida resposta à simpática solicitação do Tomás Vasques.
Limito-me a referir livros de memórias e ponho de lado a consideração de terem ou não "mudado a minha vida" por manifesta incapacidade em avaliar tal consequência.
Começo por referir os dois que escrevi. Sem dúvida os melhores. Segundo algumas opiniões suspeitas.
Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via - (Âmbar Maio 2007) Este revela um momento do PCP no seu pior mas não se pode tomar, como no livro se adverte, como pretendendo mostrar o que é O PCP. Sendo eu o autor não me parece bem que o recomende a ninguém.
ARA - Acção Revolucionária Armada (D. Quixote 2000) Um livro que apenas recomendo a quem queira conhecer uma página da história do PCP mas advirto que foi colocado no Index por este partido. Está esgotado e só se encontrará na Associação 25 de Abril ou em alguma feira de livro.
Foi Assim de Zita Seabra, Alêtheia, Junho 2007. É fundamentalmente um case study de carácter e de perfil político/psicológico do autor. (Claro que todos os livros de memórias, e não só, o são nalguma medida mas alguns exageram). Um amigo da autora tentou desculpá-la admitindo que surja livro/errata que corrigir a sua estatura no PCP, os enganos e outras coisas, receando no entanto um volume maior que o original.
MEMÓRIAS, um combate pela liberdade de Edmundo Pedro (Âncora, Janeiro 2007). É um relato fascinante da luta e sofrimentos inauditos de uma família em luta contra a ditadura. A não perder.
Conquistadores de Almas de José Luís Pinto de Sá (Guerra e Paz, 2006). É uma autobiografia política de docente e ex-aluno do Instituto Superior Técnico, antigo militante dos CCRM-L (Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas), um pequeno grupo da esquerda estudantil ultra-radical dos últimos anos da ditadura. É o livro auto-biográfico mais surpreendente que já li. O autor Afirma que preso pela PIDE/DGS a sua paixão pelo CCRM-L se transferiu para a polícia ao não resistir, durante alguns dias de espera em isolamento, à expectativa da tortura.
Eles têm o direito de saber de Jaime Serra, Edições Avante, 1997. A vida difícil dos trabalhadores e a fascinante trajectória política de um dos mais credenciados revolucionários do PCP.
Alvorada em Abril de Otelo Saraiva de Carvalho, Livraria Bertrand 1977 - um relato impressivo e incontornável da conspiração, do movimento das tropas para a tomada de Lisboa pelo comandante do golpe militar.
Ascensão Apogeu e Queda do MFA do então capitão Diniz de Almeida, Edições Sociais. (1980?) em dois volumes e muito documentado, apresenta um relato pormenorizado do processo revolucionário de 1974/75 focado no Movimento das Forças Armadas, visto e vivido por um dos mais importantes operacionais da revolução.
26 anos na Rússia Soviética de Francisco Ferreira - Chico da CUF - Fernando Pereira Editor, 1974. O livro apresenta-se: A mentira soviética revelada por quem a viveu. O socialismo não existe na URSS. Último aviso aos ingénuos. Um aviso que entretanto perdeu relevância.
Memórias Políticas de José Relvas, Terra Livre, 1977. José Relvas foi um daqueles revolucionários republicanos que em 5 de Outubro de 1910 anunciou aos portugueses, da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, a vitória da revolução e da República. Uma visão incontornável, de um importante protagonista do facção política moderada mas um dos mais corajosos organizadores da revolução e não apenas um revolucionário do dia seguinte.

2007-08-30

Sou Assim

Zita Seabra deu uma entrevista à Visão (2007-08-30) onde tinha a oportunidade de desmentir a minha presença numa "visita do PCP" a sua casa em 1988 e não desmentiu. Prefere, por orgulho, julgo eu, (o orgulho apesar de venial é um pecado) continuar a mentir.

Nesta entrevista repete passagens do seu livro como esta: "as camaradas ganhavam menos que os homens e as «amigas da casa do partido» não tinham sequer o direito de ser chamadas de camaradas." Eu estive na clandestinidade (1964 a 1974) no mesmo período que ela (1967-1974) e em todo esse período conheci para além da minha, várias casas de outros militantes clandestinos dos PCP e em todas elas as mulheres com ou sem trabalho de organização ganhavam rigorosamente o mesmo. E não passava pela cabeça de ninguém que não fossem tratadas em pé de estrita igualdade com os homens. No tratamento como "camaradas" ou qualquer outro aspecto relacionado com a sua pessoa. Concluo que frequentámos a clandestinidade em partidos diferentes.

Noutra passagem da mesma entrevista, a propósito da derrota militar sofrida pela revolução, em 25 de Novembro de 1975, Zita diz : "Se eu tenho ganho, teria sido uma tragédia. Felizmente que fomos derrotados no dia 25 de Novembro de 1975." O negrito foi colocado por mim e a afirmação ainda ficava melhor se em vez de "fomos derrotados" Zita tivesse dito "fui derrotada". Porque se já percebemos pela leitura do seu livro de memórias que o PCP era constituído essencialmente por Álvaro Cunhal e Zita Seabra não é menos verdadeiro que no 25 de Novembro estavam em confronto de um lado três quartos do país: os sectores políticos e militares da direita, do centro e de parte da esquerda (PS, "grupo dos 9", etc.) e do outro... Zita Seabra.
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Nota: o "eu" que sublinhei poderia ser uma expressão infeliz de quem redigiu a entrevista mas presumo que seja autêntico porque ele define o que há de mais paradigmático no livro de memórias de Zita Seabra.

2007-08-26

Sou Assim. Agora sou católica

Nem sempre leio a Visão e por isso acontece perder pérolas destas (Visão 2007-08-09 pág.18).

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Zita Seabra que assevera no seu livro ter-se pautado na sua conduta de dirigente comunista por "uma fé cega" nas ordens que recebia da direcção do PCP (incluindo-se assim na elite restrita de dirigentes "cegos pela fé" ) adquiriu uma nova religião e um novo dogma, o católico. Não a critico. Pelo contrário. Surge-me até a esperança de que seguindo os preceitos da Santa Madre Igreja - não mentirás! - venha rectificar o lamentável equívoco cometido no seu livro ao incluir-me num episódio desagradável em que não estive.

Pior que ter-se enganado foi prometer-me corrigir publicamente o erro e depois em entrevista ao CM dizer que não tinha nada a alterar.

Ora eu não pedia que alterasse tudo o que estivesse errado, o que poderia revelar-se hercúleo, mas tão só a passagem caluniosa a meu respeito.
Vejamos agora, católica, ainda fresca do baptismo, se Zita Seabra faz contricção, se corrige ou se se mantém contumaz.

2007-08-25

"A TEORIA É A NOSSA PRÁTICA"

O terceiro capítulo do livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via que em seguida se reproduz aborda a questão do culto da personalidade, a sacralização de Álvaro Cunhal e a questão da "unidade de pensamento" no PCP (enquanto nele estive filiado, agora não sei o que lé se passa!...) para cuja preservação a direcção sempre recusou uma revista teórica com argumentos como o do título;

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CUNHAL NO OLIMPO

1) A sacralização de Álvaro Cunhal

Álvaro Cunhal com setenta e quatro anos de idade e ainda com cinco anos à sua frente como secretário-geral do partido, chegara ao Olimpo. Um Olimpo à medida do PCP, mas em todo o caso um Olimpo.
O Partido Comunista Português era em finais da década de 70, tendo em conta o país, um dos maiores e mais influentes partidos comunistas dos países capitalistas. Se houvesse que atribuir méritos por tais grandezas, ninguém hesitaria em atribui-los sobremaneira a Álvaro Cunhal. Sem esquecer os outros quadros revolucionários e as lutas notáveis que protagonizaram que lamentavelmente, ninguém vai conhecer porque não foram passadas a escrito salvo um número relativamente pequeno de autobiografias ou relatos, vivos e interessantes, de lutas contra a ditadura da autoria dos próprios protagonistas. E é pena. Para os Portugueses que ficam sem conhecer uma parte de si. E em muitos casos uma parte vibrante de coragem e abnegação.

Figura carismática e amada no seu partido pelo heroísmo patenteado nas prisões fascistas e na clandestinidade, “o Álvaro” era venerado pela sua coragem, inteligência, cultura. E dedicação total à luta pelo comunismo. A sua acção e as suas características pessoais tornaram-no um dos mais prestigiados dirigentes internacionais no universo comunista e em particular na União Soviética.
A luta sem desfalecimento durante o meio século de ditadura em condições de clandestinidade e forte repressão e depois o papel central desempenhado pelo PCP na revolução do 25 de Abril trouxeram-lhe e ao seu líder grande influência entre uma significativa parte dos Portugueses. Se grande era a força do ditador Salazar, à sua altura levantava-se Cunhal! Muitos assim pensavam.

O prestígio e a adoração de Cunhal não deixavam de crescer num partido onde, a iliteracia, o atraso cultural, a fé que não o estudo, caracterizava uma grande parte dos militantes apesar de ter nas suas fileiras, ou como simpatizantes, grande parte da elite intelectual do país.
A comparação com a classe operária da França, Itália, Alemanha e outros países europeus era frequentemente usada por Álvaro Cunhal, na permanente formação interna de quadros que constituíam as suas conversas, para sublinhar uma pretendida superioridade revolucionária da classe operária portuguesa patente nas frequentes manifestações, greves e agitações sociais. E que explicação haveria para tal milagre no país que incessantemente repetíamos ser o mais atrasado da Europa? Pois apesar de a classe operária portuguesa ser das últimas a formar-se na Europa Ocidental devido ao atraso industrial do país, ter menos tradições de luta revolucionária e estar mais marcada pela sua chegada recente do campo, tal prodígio, teria de se concluir, resultava do persistente trabalho de esclarecimento do PCP junto da massa dos trabalhadores! Intimamente era lógico concluir que em elevado grau isso era mais um mérito a atribuir a Álvaro Cunhal.

O secretário-geral em cada reunião do comité central e sempre que a ocasião o proporcionava, explicava como era gratificante ver reconhecido na União Soviética e em todo o movimento comunista internacional “o grande prestígio do nosso partido”. Cada participação em acontecimento importante lá fora, no mundo comunista, de acordo com a informação ao comité central, revelava o alto valor e estima em que era tida a participação do PCP. Como quem chefiava as delegações portuguesas para acontecimentos de maior relevância era quase sempre Cunhal concluíamos a quem se devia atribuir o mérito. Só a firme oposição de Cunhal ao culto da personalidade impedia que o próprio colocasse tais feitos no seu curriculum e insistisse em os atribuir ao “nosso glorioso colectivo”.

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2) Teorias? bastavam as de Cunhal

Apesar de a condição operária constituir a regra de oiro na selecção e promoção de quadros do PCP e ser defendida com esforçado empenho pelo secretário-geral, não foi possível encontrar na classe operária portuguesa nem no partido, nas últimas dezenas de anos, um único quadro operário (ou não operário!) que se aproximasse da estatura do intelectual Álvaro Cunhal. Ou que lhe pudesse fazer sombra! Não é estranho? Não, não é estranho. É uma consequência do “pensamento único”, concepção da unidade do partido tão acarinhada no PCP e uma consequência da sacralização de Cunhal. Mesmo à sua revelia. Tais quadros teriam de respeitar, no essencial, as ideias de Cunhal, mesmo delas discordando ou confrontá-lo na sua liderança. O terreno estava minado e ninguém se dispôs a trilhar tão incerto caminho ou conseguiu evitar as minas.
Este vazio que se foi consolidando desde Janeiro de 1961, altura em que Cunhal fugiu do Forte de Peniche e regressou à direcção do partido, tinha pelo menos duas consequências redentoras, libertaria o partido durante décadas do vício “próprio dos partidos burgueses” que é a competição “fratricida” pelo poder e garantiria a inamovibilidade de Cunhal na liderança do partido.

O modelo do PCP era e continua a ser o do partido estalinista. Modelo do partido bolchevique que após a morte de Lenine viu agravada a liberdade de expressão, acabou com a possibilidade de organização de tendências, proibiu a circulação na imprensa partidária e na organização do debate livre de teses opostas às da direcção. O modelo de partido consagrado com a chefia de Estaline acabou por ser o modelo que, na prática, serviu de exemplo aos comunistas de todo o mundo, a partir de Moscovo. Em Portugal foi esse o modelo seguido, sem o culto da personalidade, sem as perversões e os crimes de Estaline, sem a paranóia persecutória do “pai dos povos” no fim da sua vida, sem a degenerescência proporcionada pelo poder mas também sem a cultura do estímulo ao debate livre, à pluralidade de opiniões, ao contraditório, à abertura de espaço para posições contrárias relativamente a questões essenciais. Porque relativamente a questões sectoriais a questões tácticas, orientações que não pusessem em causa as orientações centrais, não bulissem com o poder, aí havia toda a liberdade. Naturalmente que estes limites do PCP não eram, para o militante cheio de fé, muito evidentes nem, frequentemente, percepcionados pelo militante comum. Isso só se tornou claro para muitos quando as divergências de fundo vieram ao de cima. A uma escala de massas, como a partir do fim dos anos oitenta, ou individualmente, noutras alturas.

Curioso é assinalar que algum tempo depois da revolução de 25 de Abril foi muito debatido, pelo menos nos corredores da sede do comité central ou em pequenos grupos, e muito menos de forma regular nas organizações do partido ou no comité central, a questão do debate teórico no partido e em particular a natureza a dar ao boletim O Militante. Havia quem defendesse que este deveria dar lugar a uma revista de debate teórico ou das questões ideológicas mas tais opiniões tiveram a oposição de Cunhal e outros dirigentes que defenderam que a revista devia continuar a ser um boletim de organização. A direcção de modo nenhum poderia tolerar a ideia da “revista teórica”; isso redundaria no debate de questões essenciais de orientação e na pluralidade de ideias a circularem pela organização com a chancela da legalidade. Seria transformar o partido, “exército disciplinado” com um “pensamento único” no despautério de um “clube de discussão”. Para teorias bastavam as que Cunhal fosse escrevendo nos seus discursos ou documentos oficiais. Álvaro Cunhal chegou a sustentar, em conversas informais, na Soeiro Pereira Gomes, que em Portugal, com o PCP na vanguarda por transformações económicas e sociais profundas, “no nosso partido a teoria é a nossa prática”.
Havia duas razões para tal recusa de uma revista teórica. A primeira e fundamental era a já referida, evitar o aparecimento e o debate no partido de “teorias” que se pudessem chocar com as da direcção ou de Cunhal. E a segunda porque Álvaro Cunhal não tinha o pendor especulativo e teorizador característico de alguns expoentes do movimento comunista.


Quando a decadência do PCP começa a acentuar-se nos anos oitenta e se tornava indispensável determinar as suas causas e mudar a política, a exigência de pensamento único em torno do pensamento do líder está de tal modo sedimentada, é um valor de tal modo sagrado que tocar nele é trair e colocar-se ao lado do inimigo.
Quando o definhamento do PCP parece tornar-se irreversível para o fim dos anos oitenta e é necessário questionar o secretário-geral ou confrontá-lo com a realidade que em definitivo recusa aceitar, Álvaro Cunhal já não está acessível. Paira nas alturas muito acima do erro humano. A sua gerência do PCP já não é terrena. É do domínio do sagrado. No PCP ascendeu à condição de intocável. Apesar de andar por ali na sede, no meio de nós, de o tratarmos por tu, de almoçar e ir tomar café connosco, usar jeans e camisas de meia manga.

2007-08-12

"DESCULPEM mas não resisto"

É o título (aqui) de mais um post de Vítor Dias, dirigente retirado do PCP e actualmente consultor, sobre o livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via a quem o autor desvanecido começa por agradecer a atenção assim como ao Avante pelos seus três artigos.
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Dias dixit:" ... parece que Raimundo Narciso está muito «decepcionado» com Zita Seabra. De facto, vendo que Zita Seabra, no seu livro de memórias reescritas pela sua presente ideologia, o tinha incluído num grupo que, a certa altura...
"Ora acontece que Raimundo Narciso pode ter carradas de razão mas não tem nem um cisco de autoridade moral ou política para se queixar do comportamento de Zita Seabra. É que, em 5 de Maio, aqui, eu desmenti uma referência feita num texto do Expresso, implicitamente reportada ao livro de R.N., segundo a qual eu próprio (tal como Luís Sá e Ruben de Carvalho) teria participado numa primeira fase da «conspiração» da «terceira via» e que, só depois, não teria acompanhado R. N. "
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1) Começo com uma declaração de interesses relativamente ao meu livro: não só estou aberto a todas as rectificações que se revelem fundamentadas como peço e agradeço a quem se queira dar a tal maçada a fineza de mo comunicar para nas futuras edições as incluir.

2) Queixou-se Vítor Dias (VD) com infundado alarme, no seu blog, de uma monumental mentira e uma rotunda falsidade (aqui e aqui )
Se quisesse usar o estilo "corânico" de VD podia dizer que toda a sua MONUMENTAL indignação assenta primeiro numa apresentação jornalística do livro no Expresso pela qual obviamente não me cabia responder. Aconselhei que antes de prosseguir a gritaria lesse o livro (fim deste post). Mas VD preferiu tresler o livro para se dar razão no primeiro post e, vitimizar-se, com queixas infundadas. Acusou o autor de coisas nefandas como a de ter ido para o PS com "relativa rapidez"! Oh Vítor Dias você está a falar a sério ou a fingir que confunde o PS com o reino do mal? V. está a falar, descontraído, no seu blog, ou está a pregar do alto da sua antiga madrassa?).

3) Ora como Manuel Correia expõe aqui e aqui só forçando o texto do livro, dizendo sim quando se diz não se poderá descobrir VD entre o grupo dissidente da 3ª via.
Para que fique claro, repito o que se depreende do livro:

Vitor Dias não fez parte do grupo "fraccionista" da 3ª via. Nem antes nem depois dele existir (nota 1). E para memória futura e eventual defesa aqui deixo este registo.

Quando digo no livro (pág 65) e VD transcreve “Dos iniciais componentes do Gabinete de Crise (durante o ano de 1987 e início de 88) já só restavam, decididos a não recuar, António Graça, Vítor Neto, Pina Moura, Fernando Castro, José Luís Judas e o autor deste relato. Vítor Dias, Luís Sá, Ruben de Carvalho e outros que até ali tinham feito intervenções mais ousadas, [no comité central, perante quase 200 testemunhas] mas sem nunca pisar o risco, deixaram de nos acompanhar, por convicção ou por outras razões."
O pecado fraccionista só vem lá para Abril de 1988 (não tenho elementos escritos sobre a data exacta) e pessoas como as citadas e que naturalmente poderiam ter evoluído para posições de rotura com a linha política oficial não evoluíram. Posso aceitar que era no máximo uma expectativa de alguns dos futuros "fraccionistas" e dissidentes que a realidade revelou errónea e assim salvou VD e outros desse calvário ou dessa libertação, conforme os pontos de vista.

4) Vítor Dias talvez tenha querido prevenir "leituras" de quem só distingue o preto do branco e acusou-me de o meter dentro da "3ª via" ou ao menos nos tratos preambulares da sua formação. Posso jurar que Vítor Dias está, tanto quanto sei, totalmente limpo de qualquer contaminação. E mais, com bonomia estarei disposto, se ele muito insistir, a aceitar que VD pode ter pecado por pensamentos mas não por obras de que eu tenha conhecimento.

5) Dizia VD no seu blog: "acontece que Raimundo Narciso pode ter carradas de razão mas não tem nem um cisco de autoridade moral ou política para se queixar do comportamento de Zita Seabra."
E forçoso é concluir que as posições de RN e Zita Seabra são diametralmente opostas. RN quer que Zita Seabra o retire duma "inspecção" a sua casa que descreve no seu livro mas onde ele não esteve e ZS diz que não altera nada do que escreveu. Relativamente ao meu livro VD quer ler à força e contra o que escrevo que eu o arrumei entre os dissidentes mesmo que só nos treinos. E eu remetendo para o livro nego e dispunha-me gratamente a retirá-lo se lá estivesse.
Assim se revela que Vitor Dias é que não tem "um cisco de autoridade moral ou política" para vir com mistificações pouco sérias."
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Nota 1: "Gabinete de Crise foi a expressão que num momento de inspiração um dos membros da segurança da sede do comité central se lembrou de aplicar ao grupinho que diariamente se juntava na sala de convívio, da Soeiro Pereira Gomes, depois de almoço, com cara de caso e conversa solta a discutir o futuro do PCP. Estávamos em 1987. Hoje ninguém se lembra disso a não ser um ou outro dos raros elementos da segurança que ainda se não foi embora, perdida a fé, a esperança e as razões que justificavam o espírito de tanto sacrifício." (página 26, do livro AC e a dissid...")
Nota 2: para o tornar mais "legível" reduzi a extensão do post.

2007-08-07

Pela rede

Mais referências ou opiniões acerca do livro Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via encontradas na blogosfera (Continuação desta relação de blogs)

MACHINA SPECULATRIX 2007 07 19

EX-IVAN NUNES 2007 07 06
O NOSSO ALENTEJO 2007 06 04

Zita Seabra não corrige

Zita Seabra em entrevista ao Correio da Manhã Domingo passado:
__________
...
Correio da Manhã: - Raimundo Narciso, dissidente do Partido Comunista Português (PCP) é apontado no livro como uma das pessoas que, em 1988, invadiram a sua casa . Ele negou ter participado nessa operação e assegurou que o lapso seria alterado.
Zita Seabra: - Sobre o que está escrito, não tenho nada a adiantar.
CM - Vai ou não alterar?
ZS - Eu não altero nada.
_________

Reafirmo tudo o que disse antes, isto é, que nunca estive em casa de Zita Seabra e não tive absolutamente nada a ver com a operação que relata no seu livro, nem directa nem indirectamente.

O mínimo que posso dizer das declarações de Zita Seabra ao CM é que fiquei muito decepcionado. Na realidade, das qualidades que mais aprecio numa pessoa é a sua honradez, e o respeito pela palavra dada. Não sei como explicar tal atitude. Nós conhecemo-nos bem desde pelo menos o momento em que ela se tornou um quadro conhecido no PCP, quando em 1984, foi o rosto das posições comunistas sobre o aborto na AR. E mais ainda no período das dissidências de 1987/91. Parece-me estranho que me pudesse "ver" em sua casa sem eu lá ter ido. Um desconhecido pode ser confundido. Um caso de pouca relevância pode facilmente esvanecer-se na memória. Num caso como aquele não sei explicar. Mas dei-lhe o benefício da dúvida. Zita Seabra equivocou-se.

Em 13 de Julho, não conseguindo contacto telefónico, enviei a Zita Seabra para o Grupo Parlamentar do PSD, um email a pedir rectificação. Nesse mesmo dia, algum tempo depois, consegui falar-lhe por telefone para a AR. Revelei-lhe a minha estupefacção pelo que me imputava no livro. Zita Seabra como explicação foi-me dizendo que "recebi uma nota com o teu nome" e mais à frente: "tinha um apontamento com o teu nome" o que me levou a perguntar-lhe, porque no livro não é explícito, se ela não estava presente. Que sim que "assistiu a tudo". Perante o meu espanto acrescentou que lhe entraram pela casa dentro "10 ou 15 pessoas". Tomei isso como uma explicação para o equívoco no meio da confusão. (Se bem que me pareça inverosímil que possam ter ido mais que 3 ou 4 pessoas. A menos que os "serviços secretos e de segurança do PCP" quisessem fazer uma acção para dar nas vistas o que seria absurdo. Zita diz que além das 4 pessoas cujos nomes cita, das quais três eram membros do Comité Central, iam ainda com eles segundo diz no livro "todos os membros mais importantes das equipas de segurança, dos serviços de informações e das ligações aos serviços secretos"!! Mas, enfim, 19 anos depois, é natural nem tudo ter ficado na memória.) Perguntei-lhe ainda a data da "inspecção" para perceber melhor em que ponto das várias dissidências íamos então. Disse-me que foi antes da sua expulsão da Comissão Política do PCP (que ocorreu na reunião do CC do PCP em 4, 5 e madrugada de 6 de Maio de 1988 que eu descrevo pormenorizadamente em quase 10 páginas do meu livro Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via publicado em 15 de Maio de 2007, cerca de um mês e meio antes do livro de Zita Seabra.)
Segundo depreendo e apoiando-me no seu livro, Zita Seabra, ainda na Comissão Política do PCP, já no princípio das divergências mas ainda acreditando (como muitos de nós, aliás) no comunismo, foi pressionada pelo secretariado do CC do PCP para autorizar a inspecção a eventuais escutas na sua casa. Zita Seabra que ainda não rompera com o PCP autorizou.
Zita Seabra que manteve sempre, antes e depois da sua expulsão do PCP, relações cordiais comigo, se não se lembrava de quem foi a sua casa, quando escreveu o livro, poderia avivar a memória junto de mim (no que a mim diz respeito) ou até de outros que cita.
Tentarei ainda falar com Zita Seabra para perceber o que se passa. E para que corrija o erro. Não só se trata de uma questão de justiça mas de veracidade e credibilidade do livro e da autora.
Julgo que também Zita Seabra tiraria proveito de tal correcção.

2007-07-19

O livro de Zita Seabra na revista VISÂO

A revista VISÂO, saída hoje, dedica três páginas ao livro de memórias de Zita Seabra. Publica, nomeadamente, algumas correcções ao texto do livro.
Na realidade o jornalista Miguel Carvalho da Visão telefonou-me para comentar "a minha participação" numa "vistoria" que, a mando do PCP, foi feita em casa de Zita Seabra, "para detectar eventuais microfones da CIA", em 1988. Foi uma boa oportunidade para corrigir a referência errada a meu respeito.
Eis o texto saído na Visão:

"Em 1988, ainda o «CASO ZITA» ia no adro, a autora recebe em casa um grupo de dirigentes ligados aos serviços de segurança do partido. A CIA estaria a rondar o apartamento e o objectivo seria encontrar microfones. Armários, gavetas, móveis, foram revirados. «Uma revista vergonhosa», conta ela. Raimundo Narciso, também dissidente PCP, é apontado no livro como um dos camaradas invasores. «Não participei em tal operação. Nunca estive em casa de Zita Seabra», assegura o actual militante do PS, recusando qualquer relação, directa ou indirecta, com o assunto. Zita prometeu a Rai mundo corrigir o lapso." [O negrito foi colocado por mim]

Esta referência ao meu nome no livro de Zita Seabra já fora corrigida por mim num post precedente e de forma mais desenvolvida. Na conversa telefónica que tive com Zita Seabra, em 13 deste mês, ela disse-me, como se depreende aliás da leitura do livro mas não está explícito, que a "inspecção" foi feita na presença dela e aconteceu algum tempo antes da sua demissão da comissão política do comité central do PCP, em 4/5 de Maio de 1988, isto é, numa altura em que Zita, apesar de toda a conflitualidade com a direcção do PCP, ainda estava disposta a transigir com abusos como o que ela refere, de lhe irem a casa verificar se a CIA teria lá colocado escutas!!

Dois dos membros do PCP de um grupo de dez pessoas que Zita refere entre os que lhe invadiram a casa já estavam por essa altura num processo de crítica e contestação da direcção do partido e seguramente que (se se confirmar a sua presença. Um já faleceu.) ao participarem em tal operação não o terão feito com nenhum zelo e, suspeito, apenas numa posição de cumprir uma "tarefa" que, ainda que a contragosto, tal como ela, não se acharam em condições para recusar.

2007-07-13

FOI ASSIM com Zita Seabra

Comprei o livro de Zita Seabra ontem ao regressar de férias. Só li ainda algumas páginas e uma das passagens em que ela refere o meu nome para a qual me tinham chamado a atenção. Mais tarde, quando o ler, voltarei ao livro de Zita, que creio ser um testemunho incontornável.
Eis o texto do livro Foi Assim da Zita Seabra em que o meu nome é referido erradamente:

"Um dia é o Domingos Abrantes quem me chama para uma reunião na sede e me comunica que tinha sido visto um conhecido elemento da CIA a rondar a minha casa. Que os camaradas achavam muito estranho mas que os nossos serviços secretos tinham sido alertados para o facto de a CIA andar a vigiar os meus movimentos e que o Partido Comunista Português temia que estivessem interessados em obter informações. Comunica-me então que o Secretariado do PCP tinha decidido que me iam revistar a casa, para ver se a CIA tinha lá posto algum microfone. Fiquei aterrada, não com medo da CIA, evidentemente, mas com medo dos serviços de segurança do Partido. Vieram a minha casa mais de dez camaradas, entre eles Raimundo Narciso, ... que viriam a ser dissidentes da Terceira Via, o ... , segurança do Cunhal e todos os membros mais importantes das equipas de segurança, dos serviços de informações e das ligações aos serviços secretos. Revistaram-me a casa toda, foram ao terraço (eu vivia no último andar), revistaram-me móveis e não deixaram nada no sítio, viraram armários, gavetas, chaminés, tudo. Uma revista vergonhosa feita pelos meus camaradas. A partir daí, percebi que me vigiavam ostensivamente a casa e me seguiam na rua, que me queriam neutralizar pelo medo. Não mudei um milímetro o que fazia até então. Os jantares de quarta-feira com Vital Moreira, José Magalhães e Jorge Lemos continuaram, sabendo todos nós o que o Partido tinha feito para me intimidar. Contei-lhes tudo. Chamei electricistas, gente dos telefones, cheguei a fazer obras para perceber se tinham deixado microfones e fios. Os fios que deixaram tinham terminais noutro andar do prédio. Em casa tínhamos comprado um ar condicionado FNAC há pouco tempo, o ar condicionado da RDA, e pareceu-me na altura que devia ter escolhido outra marca. Cortaram-se todos os fios que estavam a mais e o mesmo fizeram os vi zinhos do meu prédio. "

Nota: o negrito no meu nome foi colocado por mim. Substituí por ... (reticências) os outros 3 nomes que Zita Seabra refere.

Ora eu não participei em tal operação. Nunca estive em sua casa. Não tive qualquer relação directa ou indirecta com aquela "invasão" da sua residência nem dela tive, obviamente, conhecimento prévio.
Era natural que assim fosse porque as minhas tarefas no PCP, além de tarefas genéricas comuns a vários membros do Comité Central, eram as questões da Defesa Nacional e das Forças Armadas como é publico e notório (para as pessoas atentas à história do PCP) e não tinha então nem nunca tive, antes ou depois, actividade relacionada com as "informações" (intelligence) ou com a segurança interna do partido.

Tenho experiência de livros de memórias e sei que a memória por vezes dá-nos certezas que a realidade desmente. Por isso cotejá-la com documentos ou, na sua falta, com a memória de outras pessoas é muito importante.

Contactei hoje a Zita Seabra, por telefone, para o grupo parlamentar do PSD, na Assembleia da República, certo de que ela estava de boa fé e convencida do que afirmava no seu livro.
Foi com satisfação que recebi a sua resposta, que lhe bastava a minha palavra e que corrigiria publicamente o lapso, na primeira oportunidade.

2007-06-22

Entrevista ao Portal da Literatura

O Portal da Literatura pediu-me uma entrevista sobre o livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via e eu agradeçi e dei-lha com todo o gosto.
Aproveito para informar que com excepção desta e da que dei a José Pedro Castanheira para o Expresso, todas as outras sairam sem serem vistas por mim. Resultaram de conversas gravadas e o jornalista escreveu as "minhas" respostas, com maior ou menor fidelidade ou acerto e condicionado pelos constragimentos de espaço. Daí que, apesar de em geral haver um notável poder de síntese e qualidade, por vezes apareçem respostas estereotipadas ou até incompreensíveis. De modo que o que faz fé é mesmo o que está no livro.
Link para a entrevista no Portal da Literatura: Aqui

2007-06-21

Jara defende, no Avante, as "vigilâncias" aos dissidentes do PCP

José Manuel Jara escreveu no último Avante uma crónica que pretende ser uma apreciação crítica ao livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via.
Na realidade a quase totalidade da prosa entretém-se a atacar o autor do livro. O pouco que dedica a contrariar factos ou argumentos é verdadeiramente risível e tem serventia apenas no ambiente assombrado pelo defunto marxismo-leninismo.

Os argumentos ad hominem não merecem nenhuma perda de tempo. Sobre eles vale a pena, pelo que contém de mordaz e certeiro, o post que João Tunes lhe dedica no seu Água Lisa. Tunes historia aí as condenações dos dissidentes ao internamento em hospitais psiquiátricos com que Brejnev substituiu, na União Soviética, os fuzilamentos de Estaline. E depois retira conclusões para o caso em apreço que se poderiam resumir assim:

preocupado com as revelações do livro de Narciso o Avante pediu reforços. E tratando-se de caso de dissidência, o colectivo, munido da comprovada experiência brejneviana, recorreu a um psiquiatra.

É claro que é só um faz de conta. É que afinal já nem existe Brejnev, nem União Soviética, nem comunismo, nem mais ninguém com pachorra para ser dissidente dos fantasmas que o psiquiatra José Manuel Jara conserva em naftalina.

Para avaliar a força argumentativa e o pensamento de Jara basta referir que ele dá, de modo hilariante, 15 anos depois de acontecimentos “que abalaram o mundo” como acertado o diagnóstico de Cunhal (então, em 1988, ainda se compreendia) para o que então se estava a passar com as dissidências do «Grupo dos Seis» e da «Terceira Via»:

“crise de consciência comunista de alguns militantes”

Mas o psiquiatra José Manuel Jara acometido pelo sobrenatural, com o PCP reduzido a pouco mais que mascote da “burguesia”, aqui e ali parceiro do PSD, com a implosão da União Soviética, a extinção do comunismo (se não considerarmos as reservas museulógicas de Cuba e da Coreia do Norte) acha, em 2007, que não se passou nada. Que em 1988 ainda não se passava nada. As causas que levaram tantos milhares de comunistas a questionarem-se, a afastarem-se do PCP e a deixarem de ser comunistas não resultavam de mudanças profundas na realidade política nacional e no mundo. Não. Tratava-se de “crise de consciência” de uns “transfugas” que queriam ir para o “reino do mal”, o PS e que naturalmente deveriam ser tratados em hospital psiquiátrico.

"A atitude preventiva da direcção do PCP, a vigilância, o controlo e a luta contra a dissidência, permitiu evitar o pior." - Sentencia Jara.

No que se traduzia a dissidência dos Seis, da 3ª Via e depois das que se seguiram? Em querer liberdade para expor e defender as suas ideias no partido, nos seus organismos e nos meios de comunicação próprios, sem represálias. Acusados, ameaçados, estes cometeram o crime de discutir entre si, escrever nos jornais ou em documentos internos que circulavam à revelia da censura interna. A isto a direcção respondeu com espionagem, vigilância a militantes e às suas residências. Jara aprova e justifica. Como aprovaria e justificaria provavelmente, de acordo com as circunstâncias, os internamentos psiquiátricos de Brejnev ou os fuzilamentos de Estaline. Que no seu tempo e no seu lugar também se justificavam para “evitar o pior”.

Jara acusa no Avante, os dissidentes, ou alguns dissidentes de 1987/88, de terem ingressado, em 1995, no PS (como poderia acusar outros de terem ido para o Bloco de esquerda ou o PSD) julgando fulminá-los sem se aperceber que tal enxofre, tais raios e coriscos, só lampejam nas mentes dos devotos do órgão interno do PCP. E que no país que extravasa os estatutos do seu partido só seria verdadeiramente surpreendente é que alguém de qualquer outro partido fosse a correr alistar-se, no partido de Jara.

José Manuel Jara desculpa-se perante o PCP de ter lido o livro e justifica leitura tão blasfema pela necessidade de o ler para o poder criticar. Quem não conheçe a mentalidade dos crentes de qualquer seita poderá achar bizarra ou mero processo de intenções a afirmação que João Tunes, com perfeito conhecimento de causa, faz no seu blog ao dizer que os artigos no Avante (referia-se aos dois primeiros) ao criticarem o livro sem que os autores o tivessem lido tinha apenas o propósito de o colocar no índex, de impedir a sua leitura pelos militantes. Um estranho a igrejas diria que, fruto proibido, estimularia a leitura. Na realidade os militantes não crentes, se o quiserem ler deverão fazê-lo às escondidas ou justificarem a leitura com qualquer propósito redentor, como fez Jara. Mas os “crentes” sentirão uma natural repulsa pelo livro, como qualquer religioso fanático sentiria pela leitura de algo inspirado pelo diabo.

Por fim Jara, referindo-se aos dissidentes, diz que “Quanto à política, está a paredes-meias com a economia política e as finanças pessoais. A ideologia antes sobrevalorizada, agora é muda. O único «pensamento» é mercantil”.
Jara, ao que me dizem, ganha bem e vive desafogadamente. E nisso não vejo nada de reprovável. Pelo contrário, se for por mérito seu. Dizem-me que apesar de nunca ter feito sacrifícios pelo seu partido venera os que o fazem. Também não me parece caso para qualquer reparo. Mas que se abalance a fazer críticas e processos de intenção como aqueles parece-me, para tanto, faltar-lhe moral e vergonha.

2007-06-07

Visão, 2007-06-06

Entrevista conduzida por Miguel Carvalho. Fotos de Luís Barra


Não diz Álvaro. Diz Cunhal. Nem sequer Álvaro Cunhal
Quem conhece o PCP, sabe que isso é a marca de um divórcio, a distância definitiva. Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via (edições Ambar) é a história de uma separação dolorosa, amarga, por vezes contada num tom azedo. Afinal, é o livro de um homem de 68 anos, com quase três décadas de PCP, ex-dirigente da ARA, a organização armada dos comunistas para minar o fascismo português. Afastado da política activa, militante do PS, gestor e consultor, avô babado, Raimundo Narciso ainda «puxa palavra» num blog com o mesmo nome. Puxemos agora pela conversa...

Porquê este livro após tantos anos e depois da morte de Álvaro Cunhal?
Publicá-lo em cima dos acontecimentos podia ser interpretado como vontade de intervir na vida do PC. Estava escrito há anos, apenas o retoquei. Foi mero acaso sair depois da morte do Cunhal. A decisão de publicar é anterior.

O que sentiu no dia em que ele morreu?
O funeral foi um acontecimento memorável, tendo em conta o que ele representa
para a história do PCP e do século XX. Mas não senti mais do que isso.

(Continua aqui )

2007-06-04

Na blogosfera

Relação dos blogs (os que detectei) que referiram ou comentaram o livro Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via:

Água Lisa (6) link 1 , link 2 , link 3 , link 4 , link 5 , link 6

Nota: também encontrei um blog que a propósito do livro comentou não o livro mas o autor. Mas a linguagem de tão desapropriada (terminologia rasca do "milieu") que por uma questão de higiene me dispensei de mensionar.
Também em alguns posts dos blogs enumerados aparece o comentarista (o camarada!!) de serviço, sob vários nomes, a revelar que a mentalidade reinante lá por casa se mantém "coerente" e imutável..

2007-05-31

O anúncio público da "Terceira via"

Fotografias, no Diário Popular, de José Saramago, (escritor), Baptista Bastos (escritor), Mário de Carvalho (escritor), António Borges Coelho (historiador), Urbano Tavares Rodrigues (escritor), Joaquim Gomes Canotilho (jurista/constitucionalista), António Hespanha (historiador), António Teodoro (Presid da Federação Nacional dos Professores-FENPROF) e Mário Vieira de Carvalho (musicólogo)

Um futuro Nobel no INES

Reunião no Fórum Picoas, em Lisboa, em 13 de Janeiro de 1990, para apresentação do Instituto de Estudos Sociais, INES. Presentes cerca de mil pessoas, segundo O Jornal. Na mesa vêem-se, José Luís Judas (em pé), Álvaro Veiga de Oliveira, Raimundo Narciso, Orlando de Carvalho, José Saramago, Manuel Lopes, António Teodoro, António Hespanha, Vital Moreira, Joaquim Gomes Canotilho, José Magalhães. Na mesa, não abrangidos pela fotografia, encontravam-se, também, Barros Moura, Fernando Castro, Piteira Santos, Correia Pinto, Zita Seabra, Horácio Guimarães, Fernando Loureiro, Rui Mário Gonçalves, António Osório. (Fotografia de Fernando Peres Rodrigues, na página 175 do livro AC e a dissi...)

2007-05-28

RN na Antena 1 com Maria Flor Pedroso

O link aí em baixo leva à gravação da entrevista feita a Raimundo Narcio, na Antena 1, em 2007-05-26, por Maria Flor Pedroso.

Aqui que ninguém nos ouve, e na esperança que não reproduzam, conto-vos que quando Maria Flor Pedroso (jornalista que já conhecia dos tempos da AR e por cuja actividade profissional tenho muita admiração) me telefonou e convidou para o seu programa das manhãs de Sábado, a deixei muito surpreendida quando lhe respondi que ficara desapontado.
- Então??
- Bom... é que pensei que me vinha convidar para substituir o professor Marcelo.

RTP - Podcast - MARIA FLOR PEDROSO

2007-05-27

NA FEIRA DO LIVRO DE LISBOA

Das 16 às 18 ou 19 h estarei hoje, no stand da Âmbar, na feira do livro, em Lisboa, supostamente para dar autógrafos às centenas de ávidos leitores do livro a que este blog se dedica. Na realidade depois do que me disseram, que certa vez na Feira do Livro, um prémio Nobel passou a maior parte do tempo entediado com a falta de pedidos de autógrafo... depois desta desanimadora informação espero que alguns amigos ou autores como eu, estejam por ali e aproveitemos o tempo para uma boa cavaqueira.
Os visitantes desta posta estão desde já convidados, se forem a passar por ali, para se apresentarem e eu lhes agradecer a sua visita aqui à DISSIDÊNCIA.

Mário Lino apresenta o livro "AC e a diss..."

O livro Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via é o segundo livro escrito pelo Raimundo Narciso e, tal como o primeiro, aborda a organização, o funcionamento e a actividade do PCP em períodos em que o autor teve um papel muito relevante nesse partido.
Aquando da sessão de lançamento do seu primeiro livro – ARA: Acção Revolucionária Armada. A História Secreta do Braço Armado do PCP, realizada em Dezembro de 2000, o nosso saudoso camarada e amigo José Barros Moura, que fez a respectiva apresentação, referiu: «este livro não é um livro de teoria política, nem um ensaio histórico, nem um romance, nem um livro de memórias. É um pouco de tudo isto ao mesmo tempo e nessa característica reside muito do seu valor». Penso que a mesma apreciação se aplica perfeitamente a este segundo livro do Raimundo Narciso.
Mas sendo o Raimundo um protagonista importante, ou mesmo um dos protagonistas centrais deste livro, considero apropriado que tanto o livro como o seu autor/protagonista sejam objecto desta minha contribuição para a apresentação do livro.

Comecemos, pois, pelo autor.

Conheci o Raimundo Narciso em finais de 1959, princípios de 1960, pouco tempo depois de, vindo de Moçambique onde vivia com os meus pais, ter chegado a Lisboa para frequentar o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico. Tinha então... [continua aqui]

2007-05-26

JN de 2007-05-26

Com o título de PS quis adesão directa de plataformistas o Jornal de Notícias aproveita a entrevista dada por RN, nesta data, a Maria Flor Pedroso, na Antena 1 e dela faz a seguinte notícia.

O ex-líder do PS António Guterres propôs, nas vésperas das eleições autárquicas de 1993, a adesão individual ao partido dos dissidentes do PCP que criaram a Plataforma de Esquerda. A revelação é feita por Raimundo Narciso, em entrevista à jornalista Maria Flor Pedroso, que hoje será emitida pela Antena 1.

Narciso, expulso do PCP em 1991 e então dirigente daquela organização cívica independente, conta que Guterres colocou em pé de igualdade a adesão ou uma negociação política, com vista à inclusão de plataformistas nas listas do PS às autárquicas de 1993. Foi esta última a via seguida, propiciando, por exemplo, a eleição de José Luís Judas para a presidência da Câmara de Cascais, então ainda na qualidade de independente.

Autor da obra "Cunhal e a dissidência da Terceira Via", recentemente editada pela Ambar, Raimundo Narciso reitera a tese de que, quando aquele grupo começou a exprimir posições críticas em relação à linha oficial do PCP, em finais de 1987, nenhum dos seus membros tinha intenção de aderir ao PS. A entrada no partido de alguns dos envolvidos, como Pina Moura ou Judas, ocorreria, de facto, apenas sete anos depois. O próprio Raimundo Narciso chegou a ser eleito deputado como independente, antes de se filiar. Outros dissidentes, como Miguel Portas e Rogério Moreira, preferiram o Bloco de Esquerda.

Narciso assegura na entrevista que os militantes do PCP ligados à Terceira Via, cujas movimentações relata na obra, nunca tiveram "esperança de que Álvaro Cunhal fizesse mudanças", susceptíveis de tornar o partido "mais eficaz", num contexto de profundas transformações políticas, induzidas pela Perestroika de Mikhail Gorbachov.

!º encontro da PE com o PS (1992)



Fotografia (de Luís Carvalho) saída no Expresso de 4 de Janeiro de 1992, vendo-se José Barros Moura e Raimundo Narciso à saída da casa de Jorge Sampaio, então secretário-geral do PS, onde se verificara, na véspera, o primeiro encontro da associação política Plataforma de Esquerda em cuja delegação estava também Miguel Portas, com o PS.

2º encontro PE-PS



José Barros Moura, Raimundo Narciso e António Guterres recém eleito secretário-geral do PS, (fotogafia de Luís Ramos, Público de 1992-02-06). Em virtude da mudança de S-G do PS realizou-se um 2º encontro entre a Plataforma de Esquerda e o Partido Socialista em 5 de Fevereiro de 1992.

Primeira reunião de trabalho entre a PE e o PS



Fotografia de Clara Azevedo, Expresso 1993-05-08.
Da esquerda para a direita vêem-se: Raimundo Narciso, José Barros Moura, José Ernesto Oliveira, Joaquim Pina Moura, da Plataforma de Esquerda e António Guterres secretário-geral do PS.
Enquanto os anteriores encontros assinalados pelas fotografias dos posts seguinte são encontros protocolares este é primeiro encontro de trabalho com vistas a discutir um eventual acordo de cooperação (que se concretizou) para as eleições autárquicas no fim desse ano.
Neste encontro estiveram presentes também José Luís Judas pela PE e outros dirigentes do PS, nomeadamente Jorge Lacão, que não se vêem na fotografia.

NA ANTENA 1


Amanhã, a partir das 12 horas, com Maria Flor Pedroso, à conversa a pretexto ( sobre, e para lá) do livro Álvaro Cunhal e a dissid... Que depois virá transcrita no Jornal de Notícias.
É obrigatório levar um disco. Levarei Fausto. Por este rio acima que canta viagens de Fernão Mendes Pinto.

POR ESTE RIO ACIMA

O barco vai de saída
Adeus ó cais de Alfama
Se agora vou de partida
Levo-te comigo ó cana verde
Lembra-te de mim ó meu amor
Lembra-te de mim nesta aventura
P'ra lá da loucura
P'ra lá do Equador

Ah mas que ingrata ventura
Bem me posso queixar
da Pátria a pouca fartura
Cheia de mágoas ai quebra-mar
Com tantos perigos ai minha vida
Com tantos medos e sobressaltos
Que eu já vou aos saltos
Que eu vou de fugida
....
[letra aqui]

Delegado


António Mendonça, (actual presidente do Conselho Directivo do Instituto Superior de Economia e Gestão), quando em 1988 falava na tribuna do XII congresso do PCP, no palácio de Cristal no Porto (fotog pág 167 do livro AC e a diss...)

2007-05-23

O 7º mais vendido na FNAC

No top Fnac "Álvaro Cunhal e a dissid..." está em 7º lugar entre os livros mais vendidos. Ver aqui

2007-05-22

Fotografia da página 131 do Livro "AC..."

Da esquerda para a direita, Joaquim Pina Moura, José Luís Judas e José Barros Moura (1944-2003). Delegados ao XII congresso do PCP, Palácio de Cristal, no Porto, de 1 a 4 de Dezembro de 1988.

2007-05-21

No Diário de Notícias de 2007-05-19

AS PESSOAS mais ou menos atentas à vida política já adivinhavam que o Partido Comunista Português era assim. A monumental biografia de Álvaro Cunhal que José Pacheco Pereira vai publicando ainda não deixa margens para grandes dúvidas. Livros estrangeiros sobre a URSS, como ‘No País da Mentira Desconcertante’, do croata Ante Ciliga, também não. Agora, com este ‘Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via’, de Raimundo Narciso, o leitor dispõe de uma perspectiva privilegiada para ver em acção o falecido secretário-geral do PCP controlando consciências e delineando a táctica e a estratégia do movimento comunista em Portugal. Raimundo Narciso não era um comunista qualquer. Passado à clandestinidade em Agosto de 1964, quando era estudante do Instituto Superior Técnico, tornou-se funcionário do PCP. Integrou o comité central, de 1972 a 1988. Foi um dos criadores da ARA, Acção Revolucionária Armada (sobre este tema escreveu um excelente livro, ‘ARA— A História Secreta do Braço Armado do PCP’,, ed. Dom Quixote). Foi expulso do Partido Comunista em 1991 e eleito deputado à Assembleia da República em 1995, como membro da Plataforma de Esquerda, mas integrando as listas do PS, partido no qual ingressou em 1999. A cisão de Raimundo Narciso com o seu, até então, partido de sempre não foi abrupta, mas lenta e evolutiva. A irrupção da perestroika na URSS de Gorbachov marcou a viragem na consciência política de Narciso e outros camaradas seus — sempre minoritários na organização— que quiseram refundar o PCP. O que provocou angústia na direcção partidária. Cunhal tentou, sempre charmoso, trazer pacificamente as ovelhas negras para o redil da ortodoxia. Mas outros dirigentes não tiveram tanta elegância. Octávio Pato, com a sua proverbial brutalidade, mandou seguir Narciso pelos serviços de segurança do partido. Estes retratos da nomenclatura partidária são um dos interesses da obra. È pena, porém, que nem todos os intervenientes na polémica sejam identificados, permanecendo anónimas muitas citações entre aspas. Uma informação inédita e saborosa — e exemplar do maquiavelismo de Cunhal — é a do papel desempenhado pelo PCP na formação do Partido Renovador Democrático, do general Ramalho Eanes. Tudo para destruir o PS. Livro utilíssimo.
Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via
Raimundo Narciso
>género : Memórias
>Editora Âmbar
> *****

2007-05-19

MÁRIO DE CARVALHO (2)

APRESENTAÇÃO DE «ÁLVARO CUNHAL E A DISSIDÊNCIA DA TERCEIRA VIA» DE RAIMUNDO NARCISO

[Por Mário de Carvalho]

"Como é que gente bem formada, culta, às vezes brilhante, opta (estamos a falar de opções – ninguém aqui foi obrigado) pela renúncia à crítica e pela adopção de fórmulas que nem por serem tranquilizadoras e identitárias deixam de transportar consigo a mentira e os germes da iniquidade." Esta foi a questão com que Mário de Carvalho interpelou a numerosa plateia que assistiu ao lançamento do livro de Raimundo Narciso.

1 - Eu vou ser muito breve porque alguma experiência destes eventos me diz que as pessoas não têm grande vontade de ser trabalhadas com grandes discursos pelas sete da tarde, e reservam a sua disponibilidade, e bem, para ouvir o autor do livro que é lançado. Anuncio já que tenho pouco mais de 7 500 caracteres, o que, espero esteja dentro da medida da vossa paciência. São apenas algumas palavras para lembrar o percurso do autor, até à expulsão do PCP; para realçar aspectos que me pareceram mais marcantes no livro, e para deixar uma ou outra nota à margem:

2 - Raimundo Narciso abandonou o curso de Engenharia, no Técnico, em 1964, para entrar na vida de resistência clandestina, nos quadros do PCP. Viveu dez anos na clandestinidade em condições de grande risco e dureza, e integrou o comando da ARA, uma organização de acção armada do Partido Comunista, que exigia uma especial valentia, sangue frio e abnegação. Dessa actividade deu conta numa narrativa empolgante: “ARA – Acção Revolucionária Armada: A História Secreta do Braço Armado do PCP”, editado em 2000. Em 1972 ascendeu ao comité Central do Partido. Depois da Revolução do 25 de Abril foi encarregado de tarefas de especial melindre, designadamente dos contactos com áreas sensíveis da sociedade portuguesa, como são as Forças armadas, as policias e o aparelho judicial. Foi membro do comité central até 1988, e em Novembro de 1991, foi expulso do Partido, com Mário Lino e José Barros Moura, na sequência duma célebre reunião no Hotel Roma em Agosto de 1991.

3 – Recordada, em termos gerais, a biografia de Raimundo Narciso como é pública e conhecida, quero acrescentar uma nota pessoal para assinalar a extrema simpatia do Raimundo, a facilidade de contacto e de criar amigos, a sensatez e lucidez das apreciações, a capacidade de iniciativa, o sentido de justiça e também a firmeza e a coragem em situações difíceis, como muitos tiveram ocasião de comprovar.

4 - Os eventos que se relatam e documentam neste livro, ocorridos há vinte anos, ou perto, têm que ver com o inconformismo do autor em relação à análise política da direcção do PCP, ao centralismo democrático de natureza estalinista e às maneiras de pensar e processos de actuação do aparelho do Partido que a sua consciência e o seu sentido de dignidade não aceitaram. Raimundo Narciso descreve-nos quase sempre com bonomia e também sentido de humor, às vezes um tudo-nada amargo, o funcionamento, o debate e o estilo do Comité Central, no rescaldo da subida ao poder de Mikhail Gorbachev, com as convulsões e revelações que se seguiram, e as consequências últimas que de todos são conhecidas. Ficamos a par de alguns pormenores que habitualmente não são divulgados, desde a austeridade do gabinete de Álvaro Cunhal, à reserva do sexto andar das grandes deliberações. É nos contado o ambiente da Soeiro Pereira Gomes, como se adensava o quotidiano dos jovens quadros que eram então o principal apoio e suporte da direcção e que observavam, com estupefacção, dia após dia, a inalterabilidade do Partido face aos irrefutáveis acontecimentos que estavam a mudar o mundo. São abordados alguns casos que na altura tiveram grande repercussão mediática, como o grupo dos seis, o caso Zita Seabra, e seu tratamento no Comité central e o aparecimento, de início cauteloso, quase críptico, depois declarado, das primeiras dissidências internas que vieram a resultar no movimento a que os jornalistas chamaram “terceira via”. A quem não esteja familiarizado com os hábitos, praxes e linguagens do Partido, certas passagens remetem para um clima estranho, mesmo exótico que, no entanto, diga-se de passagem, era aceite, vivido e praticado por cidadãos perfeitamente normais e conviventes, como o Raimundo, outros que estão aqui e eu próprio. E continua a ser, é preciso dizê-lo por pessoas que, enquanto pessoas, e o Raimundo não discordará disto, são merecedoras de consideração e estima. Nos escalões mais altos, o jogo de linguagem chegava a ser rebuscado e repassado de subtilezas que só estavam ao alcance dos mais experimentados. Há no livro saborosas descrições da cautelosa utilização do procedimento a que, em dramaturgia se chama de “subtexto”: o que se diz é diferente daquilo que se significa. Discorre-se sobre uma coisa, quando se quer dizer outra: o que parecia ser uma questão de oportunidade sobre o adiamento de um congresso, por exemplo, recobria o primeiro questionamento subliminar do partido, do seu funcionamento e das suas políticas. Talvez nos sectores por onde eu andei, numa altura em que o Partido estava repleto de intelectuais, os limites não fossem tão perceptíveis nem as sensibilidades tão subtis. Que eu me lembre, as afirmações cismáticas eram tão vulgares como o exercício irónico, ou mesmo paródico, do senso de humor. Mas estou a falar de sectores de inimputáveis, encarados com a bonevolência paciente com que os adultos escutam as divagações infantis. Mas a nível do Comité Central imperava tacitamente uma estranha e generalizada demarcação dos limites da discussão. Podia-se discutir veementemente e, até extremadamente, tudo quanto fosse secundário e nada do que fosse essencial. Podia-se criticar os tons da tapeçaria, desde que não se tocasse nem no desenho, nem nas cores nem sequer na qualidade do tecido.

5 - Os eventos, as peripécias (e as partes gagas) que vêm relatados tiveram as suas personagens e as suas autorias. O livro – a que, pelo menos uma vez, o autor chama modestamente “esta memória” - dá conta de intervenções de Álvaro Cunhal e doutros elementos da direcção do partido, uns mais conhecidos, outros menos, numa aproximação de pormenor. Às vezes as palavras do Raimundo são quase de ternura, como quando se refere, por exemplo, a Blanqui Teixeira, do lado da ortodoxia, ou a António Graça, do lado da Crítica. Outras vezes, como nas referências a Jaime Serra, sobreleva a admiração pela coragem e pela frontalidade. Num ou noutro caso o juízo é mais severo (e posso acrescentar que nem sempre coincide com o meu) mas sem passar nunca pela agressividade ou pelo desrespeito pessoal.

6– A razão porque eu estou aqui, hoje, nesta mesa, a comentar este livro não é seguramente a minha grande avidez de falar em público, e não será apenas a admiração e a simpatia que tenho e já manifestei por Raimundo Narciso. É também porque, tratando-se de uma abordagem em que o autor relata factos que foram seguramente marcantes na vida dele, alguns dolorosos e mesmo confrangedores, até com lamentáveis recortes policiescos, Raimundo Narciso não se deixou levar pela raiva e pelo ressentimento. E ainda porque o ponto de vista do autor é inelutavelmente de esquerda, ou seja, do ângulo dos princípios e dos valores e não dos preconceitos e dos interesses; do lado dos homens e não do lado das coisas, sendo certo que as bandeiras também são coisas. Finalmente, porque desde há muitos anos me inquieta também esta questão perturbadora. Como é que gente bem formada, culta, às vezes brilhante, opta (estamos a falar de opções – ninguém aqui foi obrigado) pela renúncia à crítica e pela adopção de fórmulas que nem por serem tranquilizadoras e identitárias deixam de transportar consigo a mentira e os germes da iniquidade. Não é que o livro pretenda resolver de vez o problema. Mas é mais um alerta, documentado e vivido, contra a auto-complacência, o raciocínio burocrático e a demissão da crítica. Como alguém lembrou um dia, no decorrer destas discussões, aludindo a uma célebre gravura de Francisco Goya “o sonho da razão engendra monstros”.

MdC

Mário de Carvalho


Na apresentação do livro "Álvaro Cunhal e a dissidên..." o meu amigo e escritor Mário Carvalho disse que... palavras que a amizade dita mas não posso de deixar de agradecer. Mas antes de transcrever o que ele disse conto-vos como fui introduzido nas extraordinárias e maravilhosas efabulações dos livros do Mário.

[Imagem roubada à Renovação Comunista]

Encontrávamo-nos amiúdo por ali, pela Soeiro Pereira Gomes (já nos conhecíamos há anos). Era sempre grato e estimulante conversar com este "camarada" até porque tínhamas "tarefas" muito distintas no partido por essa altura. Eu dedicáva-me a assuntos de guerra e de defesa. De exércitos, de militares. Ele "controlava" de momento intelectuais, artistas de teatro, incluindo artistas das nossas comédias revisteiras. Invejáva-o. Confesso agora. Ainda que tardiamente. Até porque no meu metier não podia temperar a "secura" masculina e guerreira com o manancial de sensibilidades artísticas e femininas.

Ele tinha publicado então OS CONTOS DA SÉTIMA ESFERA. E quando o encontrava explicava, adiantando-me a qualquer temida inquirição, que não... ainda não tinha lido... mas logo que encontrasse o livro o iria ler.

O tempo passava e cruzáva-me com o Mário. Eu apressava-me sem o deixar abrir a boca sequer para me cumprimentar: que ainda não... ainda não lera... mas...

Até que um dia estava eu num "ponto de apoio", casa de uma camarada (Olá L!) a fazer tempo para que chegasse um oficial do exército que não era conveniente exibir na sede do partido, quando vi ali à mão o livro do Mário. É hoje. Se até leio o Avante e o Militante, arre, porque não hei-de ler Os Contos da Sétima Esfera. É que eu já tinha em tempos lido as duas primeiras páginas e não ficara seduzido.

Atirei-me com militância e determinação ao livro. E deu-se o milagre. À quarta ou quinta página, quando o tenente coronel bateu à porta, decidi levar o livro para casa e até hoje, logo que sai um livro do Mário, vou a correr comprá-lo. E nunca me arrependi.


Esta história foi tão longa que deixo para o post seguinte a intervenção do Mário no lançamento do livro.

Jorge Cordeiro no Avante

Jorge Cordeiro (membro da Comissão Política e do Secretariado do CC do PCP) parece que não leu o livro que comenta mas o comentário que fez no Avante e a seguir reproduzo é indiferente a tal "pormenor".

"Por vias tortas

"Há os que, para se afirmarem e parecerem ser no presente, têm como única réstia de crédito deitar mão ao que foram no passado e entretanto deixaram de ser. Ou, dizendo de outro modo, valendo pelo que foram e não pelo que são, rebuscam no passado que renegaram algo que lhes permita ser levados a sério no presente. Como que um género de ser o que se não é, porque o que se é... é como se não fosse.
...

[texto completo aqui]

João Tunes: fala quem sabe


No Água Lisa:

"Para demonstrar a indigência política, aliada à rasteirice dos argumentos, Jorge Cordeiro está bem para o actual núcleo dirigente do PCP. Leia-se a sentença sumária com que, à Vichinki, condena o livro de Raimundo Narciso “Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via”. Não desmente um único facto relatado no livro mas afirma que tudo são invenções e falsidades. Claro que o importante era o sinal do sagrado Índex, procurando inibir o eventual desavisado militante tentado a ler o “livro maldito”. "

2007-05-18

No Avante

Ana Bela Fino, revelou no Avante estar não só desagradada comigo como com a entrevista que dei ao SOL. Já fez prosa mais elegante. Parece-me.
Mas, se estiver autorizada, leia o livro que dá mais gozo.