2007-07-19

O livro de Zita Seabra na revista VISÂO

A revista VISÂO, saída hoje, dedica três páginas ao livro de memórias de Zita Seabra. Publica, nomeadamente, algumas correcções ao texto do livro.
Na realidade o jornalista Miguel Carvalho da Visão telefonou-me para comentar "a minha participação" numa "vistoria" que, a mando do PCP, foi feita em casa de Zita Seabra, "para detectar eventuais microfones da CIA", em 1988. Foi uma boa oportunidade para corrigir a referência errada a meu respeito.
Eis o texto saído na Visão:

"Em 1988, ainda o «CASO ZITA» ia no adro, a autora recebe em casa um grupo de dirigentes ligados aos serviços de segurança do partido. A CIA estaria a rondar o apartamento e o objectivo seria encontrar microfones. Armários, gavetas, móveis, foram revirados. «Uma revista vergonhosa», conta ela. Raimundo Narciso, também dissidente PCP, é apontado no livro como um dos camaradas invasores. «Não participei em tal operação. Nunca estive em casa de Zita Seabra», assegura o actual militante do PS, recusando qualquer relação, directa ou indirecta, com o assunto. Zita prometeu a Rai mundo corrigir o lapso." [O negrito foi colocado por mim]

Esta referência ao meu nome no livro de Zita Seabra já fora corrigida por mim num post precedente e de forma mais desenvolvida. Na conversa telefónica que tive com Zita Seabra, em 13 deste mês, ela disse-me, como se depreende aliás da leitura do livro mas não está explícito, que a "inspecção" foi feita na presença dela e aconteceu algum tempo antes da sua demissão da comissão política do comité central do PCP, em 4/5 de Maio de 1988, isto é, numa altura em que Zita, apesar de toda a conflitualidade com a direcção do PCP, ainda estava disposta a transigir com abusos como o que ela refere, de lhe irem a casa verificar se a CIA teria lá colocado escutas!!

Dois dos membros do PCP de um grupo de dez pessoas que Zita refere entre os que lhe invadiram a casa já estavam por essa altura num processo de crítica e contestação da direcção do partido e seguramente que (se se confirmar a sua presença. Um já faleceu.) ao participarem em tal operação não o terão feito com nenhum zelo e, suspeito, apenas numa posição de cumprir uma "tarefa" que, ainda que a contragosto, tal como ela, não se acharam em condições para recusar.

2007-07-13

FOI ASSIM com Zita Seabra

Comprei o livro de Zita Seabra ontem ao regressar de férias. Só li ainda algumas páginas e uma das passagens em que ela refere o meu nome para a qual me tinham chamado a atenção. Mais tarde, quando o ler, voltarei ao livro de Zita, que creio ser um testemunho incontornável.
Eis o texto do livro Foi Assim da Zita Seabra em que o meu nome é referido erradamente:

"Um dia é o Domingos Abrantes quem me chama para uma reunião na sede e me comunica que tinha sido visto um conhecido elemento da CIA a rondar a minha casa. Que os camaradas achavam muito estranho mas que os nossos serviços secretos tinham sido alertados para o facto de a CIA andar a vigiar os meus movimentos e que o Partido Comunista Português temia que estivessem interessados em obter informações. Comunica-me então que o Secretariado do PCP tinha decidido que me iam revistar a casa, para ver se a CIA tinha lá posto algum microfone. Fiquei aterrada, não com medo da CIA, evidentemente, mas com medo dos serviços de segurança do Partido. Vieram a minha casa mais de dez camaradas, entre eles Raimundo Narciso, ... que viriam a ser dissidentes da Terceira Via, o ... , segurança do Cunhal e todos os membros mais importantes das equipas de segurança, dos serviços de informações e das ligações aos serviços secretos. Revistaram-me a casa toda, foram ao terraço (eu vivia no último andar), revistaram-me móveis e não deixaram nada no sítio, viraram armários, gavetas, chaminés, tudo. Uma revista vergonhosa feita pelos meus camaradas. A partir daí, percebi que me vigiavam ostensivamente a casa e me seguiam na rua, que me queriam neutralizar pelo medo. Não mudei um milímetro o que fazia até então. Os jantares de quarta-feira com Vital Moreira, José Magalhães e Jorge Lemos continuaram, sabendo todos nós o que o Partido tinha feito para me intimidar. Contei-lhes tudo. Chamei electricistas, gente dos telefones, cheguei a fazer obras para perceber se tinham deixado microfones e fios. Os fios que deixaram tinham terminais noutro andar do prédio. Em casa tínhamos comprado um ar condicionado FNAC há pouco tempo, o ar condicionado da RDA, e pareceu-me na altura que devia ter escolhido outra marca. Cortaram-se todos os fios que estavam a mais e o mesmo fizeram os vi zinhos do meu prédio. "

Nota: o negrito no meu nome foi colocado por mim. Substituí por ... (reticências) os outros 3 nomes que Zita Seabra refere.

Ora eu não participei em tal operação. Nunca estive em sua casa. Não tive qualquer relação directa ou indirecta com aquela "invasão" da sua residência nem dela tive, obviamente, conhecimento prévio.
Era natural que assim fosse porque as minhas tarefas no PCP, além de tarefas genéricas comuns a vários membros do Comité Central, eram as questões da Defesa Nacional e das Forças Armadas como é publico e notório (para as pessoas atentas à história do PCP) e não tinha então nem nunca tive, antes ou depois, actividade relacionada com as "informações" (intelligence) ou com a segurança interna do partido.

Tenho experiência de livros de memórias e sei que a memória por vezes dá-nos certezas que a realidade desmente. Por isso cotejá-la com documentos ou, na sua falta, com a memória de outras pessoas é muito importante.

Contactei hoje a Zita Seabra, por telefone, para o grupo parlamentar do PSD, na Assembleia da República, certo de que ela estava de boa fé e convencida do que afirmava no seu livro.
Foi com satisfação que recebi a sua resposta, que lhe bastava a minha palavra e que corrigiria publicamente o lapso, na primeira oportunidade.