2007-05-09

EXPRESSO actual - 2007-05-05 (3)

SEGREDOS
DE UMA DISSIDÊNCIA

O operacional da ARA
que rompeu com o PCP

(Texto de José Pedro Castanheira)

O livro Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via desvenda alguns dos «segredos» do PCP e em particular de Cunhal: o seu gabinete, o seu salário (igual ao da mulher da limpeza), a sua proximidade e acessibilidade formais — mas também o seu poder absoluto sobre o quotidiano do partido, desde as teses ao congresso, até à vigilância exercida sobre os suspeitos de dissidência. Nele, Raimundo Narciso relata as «conspirações» do grupo dissidente (auto-intitulado «o gabinete de crise»), encorajado pelas reformas de Gorbatchov. Primeiro na sala de convívio da sede, depois num restaurante no bairro de Alvalade, até adoptarem como «quartel-general» a residência de Pina Moura, no Restelo. O grupo é amplo, mas muitos deles acabaram por fazer marcha atrás, como Luís Sá, Vítor Dias, Ruben de Carvalho e outros. O autor não foi um comunista qualquer — o que, só por si, confere uma importância extraordinária ao livro. Raimundo Narciso dedicou 25 anos da sua vida ao partido, a cujo Comité Central pertenceu. Os primeiros dez anos viveu-os na clandestinidade, tendo sido o principal operacional da Acção Revolucionária Armada, sobre o qual escreveu ARA — A História Secreta do Braço Armado do PCP (Dom Quixote). Depois do 25 de Abril, teve «um contacto diário» com Álvaro Cunhal, tendo pertencido, inclusivamente, a um organismo «ad-hoc» que assumiu especiais responsabilidades durante o PREC.

Entre os numerosos companheiros de percurso, Raimundo Narciso destaca a coragem de António Graça, a frontalidade de José Luís Judas, a competência de Barros Moura, o calculismo de Pina Moura. As apreciações mais críticas vão para Carlos Costa, Aboim Inglez (por quem Cunhal nutria uma «daquelas suas tão características e inultrapassáveis embirrações»), José Soeiro, Agostinho Lopes, António Gervásio, Helena Medina. Sobre Carlos Carvalhas paira uma espécie de comiseração. Quanto a Jerónimo de Sousa, é praticamente ignorado, sentindo-se mesmo algum desdém, traduzido na frase assassina: «O PCP de Jerónimo de Sousa, com um comunismo de sociedade recreativa, já não é nada do que era.»
Para a história ficam as conversas relatadas com os dois principais dirigentes do partido: Álvaro Cunhal e Octávio Pato. Este é descrito como uma espécie de inquisidor-mor — e que fez jus a esta condição, montando ao autor uma campanha de difamação e perseguição que culminou com uma operação de vigilância pidesca. simplesmente inacreditável. As três conversas com Álvaro Cunhal (ver pré-publicação) são um elemento indispensável para a compreensão da sua personalidade. O livro está recheado de afirmações atribuídas a pessoas não identificadas. Compreende-se até certo ponto — mas não deixa de ser uma debilidade. Pena também que não seja publicada a lista das três centenas de subscritores do documento da Terceira Via, que faz parte dos numerosos anexos.
Após o congresso, a ruptura era inevitável. A última gota acabou por ser a tentativa de golpe de Estado em Moscovo, em Agosto de 1991.

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